As relações de trabalho no Brasil precisam de uma reorganização que leve os brasileiros ao entendimento do papel do trabalho na elevação de sua dignifidade e na construção de um país melhor. O cenário atual é duplamente nocivo: há desestímulo ao empreendedorismo e fé no papel protetor do Estado no Brasil.
 
Noutras palavras, o empreendedor pequeno e médio encontra obstáculos infindáveis para desenvolver seus negócios, entre outros fatores, devido ao excesso de encargos trabalhistas e ao monopólio de algumas indústrias. Para complicar ainda mais este quadro, o Estado tem sido visto como único ente que remunera justamente as aptidões do trabalhador (por exemplo ao pagar salários extremamente elevados a um número crescente de cargos públicos concursados). O setor privado, por sua vez, tem pago os salários mínimos possíveis.
 
Este cenário empregatício no Brasil gera efeitos nocivos na cultura trabalhista, onde muitos preferem roubar a lutar por uma vida digna e outros recusam o trabalho excessivo por pouco dinheiro e, assim, preferem o desemprego ou a informalidade.
 
É neste contexto que a revista inglesa The Economist publicou uma reportagem (The Economist, The 50-year snooze, 19 de abril de 2014) criticando a estagnação da produtividade do trabalhador brasileiro nos últimos cinquenta anos. Embora a revista tenha salientado temas como a falta de investimentos em educação e em infraestrutura no Brasil, ela não deixa de avaliar a realidade brasileira com lentes de quem fala de um país extremamente capitalista e liberal (Inglaterra). Sendo assim, dá para entender a inveja da foto de um brasileiro que desfruta o sol numa praia de águas límpidas enquanto descansa numa rede, já que em Brighton (uma praia inglesa), dá para rolar uns pedregulhos e tomar vento no rosto durante o verão.
 
Comento alguns tópicos por partes. Reportagens como esta são escritas por jornalistas que creem que o mesmo modelo de desenvolvimento e aumento de produtividade dos países de onde falam pode ser aplicado em outros lugares como Brasil, China e Índia, independentemente de quais sejam suas formações culturais. Primeiro engano. Ao comparar ainda o Brasil com o Chile e o México, há que levar em conta que são contextos bem distintos e que a dirigência política destes dois países orienta-os em direção a tratados de comércio livre com Estados Unidos.
 
O segundo engano é o de crer que o Brasil precisa de comida rápida (fast food). A reportagem da The Economist também compara a agilidade do restaurante de uma rede norte-americana que oferece comida rápida em comparação com a lentidão na entrega de refeições por restaurantes brasileiros. Imagino que deve ser difícil comparar a produtividade de um trabalhador menos “braçal” que fique o dia todo na frente de um computador com a de outro mais “braçal” que tenha que entregar refeições a cada 15 segundos para clientes de uma rede de comida rápida. Mas estas redes de churrasquinho gringo expresso só denigrem nossa culinária típica.
 
É inegável que há inconstâncias na mentalidade do brasileiro quanto ao sentido do trabalho (o que motiva muitos deles a mover ações contra empresas privadas para auferir benefícios delas), e incoerências nas políticas que ainda devem fazer muito pelo fomento de empresas e indústrias nacionais. Sendo assim, não sou totalmente contrário ao conteúdo da reportagem de The Economist quando ela se refere, por exemplo, ao número baixo de patentes no Brasil em comparação com Estados Unidos. Isto é um sintoma da falta de empreendedorismo do trabalhador brasileiro.
 
Mas a impressão que tenho é que essas reportagens de países ditos mais “ricos” e “desenvolvidos” nos olham com base no que eles acham que devemos ser e fazer para convir a seus interesses. O Brasil, neste caso, só lhes interessaria enquanto provedor de grãos, frutas, carnes e minerais abundantes e baratos.
 
Tudo isso num ritmo de crescimento freneticamente ascendente. Assim, finalizo afirmando que não há fórmulas presenteadas de “desenvolvimento”, mas aquelas que convêm à ordem mundial enquanto ela se chefia por países com poder de fogo e de palavra. A economia mundial é uma espécie de grilhão condicional.
 
Já parou alguma vez, leitor, para pensar em quem é o culpado?