Há 30 anos, um Congresso Nacional majoritariamente de direita colocava o pé na porta de manifestações populares e enterrava a esperança do povo de eleger diretamente o seu presidente da República.

Depois daquele 25 de abril de 1984, o Brasil, por sorte, nunca mais seria o mesmo. Os brasileiros, também não.

Aprendemos muito com aquela derrota.

Aprendemos que, para se frustrar a expectativa da maioria, basta que alguns não façam nada. A emenda constitucional apresentada pelo então deputado Dante de Oliveira (PMDB-MT) foi derrotada não só pelos parlamentares que votaram contra, mas, principalmente, pelos que se abstiveram, que foram em número bem maior.

Aprendemos que regimes que não se orientam pela mudança, mais cedo ou mais tarde, são atropelados pelo povo. Viram passado.

Os comícios gigantescos, que exigiam o direito que o povo tem de eleger seu presidente, levaram a ditadura ao seu epílogo. No ano seguinte, as diretas seriam restabelecidas como regra, e uma assembleia constituinte seria convocada.

Aprendemos que mudanças institucionais importantes dependem de grandes mobilizações populares e de uma ampla articulação de atores políticos e sociais. Até de atores que não se bicam, mas que podem caminhar juntos.

As Diretas levaram milhões às ruas e congregaram trabalhadores, estudantes, empresários, artistas, religiosos, políticos.

Aprendemos que, mesmo quando coisas extraordinárias acontecem ao ar livre, diante dos nossos olhos e sendo do conhecimento de todos, a mídia dominante pode simplesmente ignorá-las ou distorcê-las.

Aprendemos que eleger presidentes é essencial, mas eleger um bom Congresso é uma condição obrigatória se quisermos evitar frustrações e para fazer com que as coisas no país andem mais rápido.

Aprendemos que a conscientização é pressuposto da mobilização, e que as manifestações fazem mais do que inundar as ruas de gente. Gera-se uma energia transformadora que fica à espera de quem lhe dê rumo político e consequência prática.

O grande problema das Diretas é o tempo. Passadas três décadas, aquelas mobilizações são patrimônio de toda uma geração que hoje é composta de pais e avós de novas brasileiras e brasileiros.

Essa nova geração não viveu aquele momento. Não compartilhou desse aprendizado.

Precisará aprender, por si só, o que muitos já não podem ensinar.

Terá que caminhar de novo sobre as mesmas ruas que testemunharam um sonho derrotado que despertou vitorioso.

Terá que descobrir que um país é um imenso território, cujas trilhas para um novo caminho dependem da disposição de se caminhar junto.

– Antonio Lassance é cientista político.

 
26/04/2014