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Apesar de não terem muito trajeto percorrido juntos, o presidente argentino Mauricio Macri e o mandatário brasileiro Michel Temer tiveram um primeiro encontro que se pareceu a uma reunião de velhos amigos. A breve visita funcionou como sinal de respaldo à legitimidade de Temer após a destituição de Dilma Rousseff. O novo presidente brasileiro foi recebido por Macri na Quinta de Olivos, a residência presidencial – equivalente ao Palácio da Alvorada no Brasil –, sede escolhida para driblar os protestos programados para sua chegada em Buenos Aires. Na conferência de imprensa conjunta, o presidente argentino fez piadas futebolísticas e terminou dizendo que vai “tudo bem, tudo joia, tudo legal” no Brasil. No documento difundido pelas chancelarias, se enfatizou os anseios de ambos os países em se aproximar da Aliança do Pacífico, e a possibilidade de explorar acordos de livre comércio através do Mercosul.

 

Temer pousou na capital argentina por volta das 10h, e realizou visita relâmpago, a primeira que faz ao país como presidente após a conclusão do processo de impeachment de Dilma Rousseff. Na viagem, contou com a companhia do chanceler José Serra e dos ministros de Defensa, Raul Jungmann, e da Justiça, Alexandre de Moraes. Macri o recebeu na Quinta de Olivos com um churrasco, o qual terminou com ambos felicitando o churrasqueiro. Antes de cravar os dentes na carne, os presidentes tiveram uma primeira reunião a sós, e a segunda, com a participação de ministros dos dois países.

 

Depois das reuniões, os presidentes deram uma coletiva de imprensa em conjunto. “Me sinto muito próximo do Brasil, independente de nossas rivalidades futebolísticas”, disse Macri com bom humor. “Temos um grande eixo de concordância, e a mesma missão de reduzir a pobreza em nossos países”, disse o presidente argentino, que destacou que outro tema tratado no encontro foi o da luta “contra o crime organizado, o narcotráfico, o terrorismo. Esse é um trabalho que devemos fazer a partir da união e da potenciação das nossas fronteiras”.

 

Por sua parte, Temer indicou que os dois países trabalharão “não só para fortalecer o Mercosul” como também para ampliar os acordos comerciais. “Um dos principais objetivos agora é formalizar um acordo entre o Mercosul e a União Europeia, e ao mesmo tempo flexibilizar um pouco as regras do Mercosul, para dar una certa autonomia aos Estados em suas relações internacionais”, sustentou.

 

Sobre a relação comercial entre os dois países, Temer advertiu que buscará “ajustar uma série de pontos para incrementar estas relações de natureza comercial entre Brasil e Argentina”. O presidente do Brasil lembrou a Macri que há muitas empresas brasileiras na Argentina, e também muitos empresários argentinos no Brasil. Este último dado, o mandatário argentino conhece bem: uma holding familiar instalada no país vizinho está sendo investigada judicialmente, por manobras fiscais envolvendo uma empresa offshore.

 

Fora Venezuela

 

“Queremos continuar pavimentando este caminho de integração, sabendo que os que nos sucedam terão que seguir na mesma linha, porque Argentina-Brasil, Brasil-Argentina, somando também o Uruguai e o Paraguai, têm um enorme caminho de construção de unidade”, assegurou Macri, que excluiu a Venezuela do seu discurso. Ao serem perguntados diretamente sobre o tema, os dois comentaram a possibilidade de expulsão do país caribenho do Mercosul. “A Venezuela deve cumprir com os requisitos necessários para a integração definitiva ao Mercosul. Foi dado um prazo até dezembro para que estas medidas sejam tomadas”, indicou Temer, que advertiu que tem “uma preocupação pela preservação dos direitos políticos e dos direitos humanos na Venezuela”.

 

Macri aprofundou esta linha: “claramente, nós demos um prazo, que se não for cumprido levará à perda (da Venezuela) da condição de membro ativo do Mercosul, que está em carácter suspensivo”. Junto a Temer, Macri recordou que “é muito mais preocupante o que está acontecendo em termos de violação dos direitos humanos e a não aceitação que vem tendo o governo da Venezuela a respeito do referendo que se planteou, mas nós seguiremos atentamente a situação, já vínhamos acompanhando em todo momento o que acontece na Venezuela”.

 

Colômbia sem paz

 

Os presidentes também se referiram à vitória do “Não” no plebiscito sobre o acordo de paz na Colômbia. “Na consulta popular, houve uma votação de cerca de 40% dos eleitores, e a diferença foi mínima. Nossos esforços e nossos desejos são de que se chegue a paz na Colômbia chegue a bons termos”, indicou Temer.

 

Macri, que viajou a Cartagena na semana passada para respaldar o presidente colombiano Juan Manuel Santos, considerou que “a Colômbia certamente continuará buscando vias para restabelecer essa paz, que é importante não só para os colombianos como para toda a região, e para a toda a América Latina”. “É fundamental, e advogamos em favor da manutenção do cessar fogo, para que realmente haja um espaço onde se possam encontrar alternativas, porque o resultado foi muito parelho, ou seja, vemos que muita gente acredita na via do acordo, e tenho certeza que muitos dos que votaram contra devem querer o mesmo, mas queriam outro tipo de acordo”, interpretou. “Esperemos que se criem as condições para que as negociações se mantenham”, afirmou.

 

(Livre) comércio

 

Quando perguntado sobre a relação comercial entre Brasil e Argentina, Macri afirmou que ambos os países devem defender o emprego criando novos postos de trabalho, e falou também na flexibilização dos controles aduaneiros. “Temos que nos preparar para nos integrarmos ao mundo. É uma grande oportunidade para começar a buscar coerências e coincidências macroeconômicas”, afirmou o presidente argentino, que depois agregou: “nas últimas décadas, nós triplicamos a pobreza”. Temer se mostrou de acordo: “temos os mesmos problemas: a pobreza e o desemprego bastante acentuados”. O brasileiro também disse que tem uma obsessão por “restringir os gastos públicos”. Macri optou por terminar a conferência com uma piada em perfeito portunhol:

 

– No Brasil vai tudo bem, tudo joia, tudo legal. Não?

– Nós apostamos nisso – respondeu Temer.

 

Em documento conjunto difundido pelos Ministérios de Relações Exteriores dos dois países – que inclui 47 pontos – se destacam os parágrafos dedicados às alianças comerciais. Entre eles está a ideia de “avançar com o diálogo iniciado entre o Mercosul e a Aliança do Pacífico, sobre a base das áreas de interesse comum acordadas”. Também indicaram que “é prioritária a ampliação e o aprofundamento da rede de acordos comerciais do bloco”. Na conferência, os presidentes mencionaram também a possibilidade de tratados de libre comércio com o Canadá, a Coreia, o Japão e o Egito. Ademais, houve acordos em matéria de cooperação em segurança das fronteiras, em ampliar a infraestrutura entre ambos os países e em explorar usinas hidroelétricas conjuntas. Antes de se despedirem, Macri aceitou o convite de Temer para viajar ao Brasil, para outra reunião entre os dois novos melhores amigos.

 

Tradução: Victor Farinelli

 

Créditos da foto: reprodução

 

04/10/2016

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