A inflação norte-americana acumula mais de trinta meses abaixo de 2%, o objetivo do Federal Reserve (Fed). Até agora, não existem indícios de um aumento do nível dos preços. Ao contrário, a deflação (queda de preços) se transformou em uma ameaça latente na ainda economia de maior tamanho do cenário global. Os preços do consumo ficaram em apenas 0,4% em dezembro de 2014, sua maior queda desde o final de 2008. Em termos anuais, a inflação diminuiu 0,8% ao se colocar em 1,3% em novembro passado.
 
Dessa forma, é evidente que os riscos crescentes de deflação na economia norte-americana continuarão postergando a decisão de aumentar as taxas de juros dos fundos federais por parte do banco central. E apesar de a presidenta do Fed, Janet Yellen, ter apresentado publicamente, em diversas ocasiões, sua intenção de aumentar a taxa de juros de referência em meados deste ano ou antes (atualmente, em uma classe entre 0 e 0,25%) e, com isso, manter limitados os riscos derivados do aumento espetacular dos índices da bolsa, os membros do Comitê de Operações de Mercado Aberto (FOMC, em sua sigla em inglês) resistem a aplicar a medida em meio a um nível de preços baixos.
 
No entanto, diferente de alguns meses atrás, quando três membros do Fed votaram a favor do aumento das taxas de juros, na reunião mais recente, ocorrida na última semana de janeiro, os 12 membros do Comitê votaram contra a medida. No final do encontro, Yellen declarou em coletiva de imprensa que a “paciência” regerá a tomada de decisões do Fed: a incerteza não cede e, por isso, não se fará nada senão observar uma recuperação de maior solidez, quando as políticas monetárias excepcionalmente frouxas começarem sua reversão de maneira gradual.
 
A mensagem oculta por trás dessas declarações é que se a inflação continuar caindo nas próximas semanas, não apenas o Fed não endurecerá a política monetária no curso prazo, mas também poderá, eventualmente, levar a cabo uma nova bateria de medidas “não convencionais” com o objetivo de escorar a rentabilidade das empresas e dos bancos. A tendência deflacionária constitui um sinal inequívoco de que algo anda realmente mal na economia mundial em geral, e nos EUA em particular. O nível de preços extremamente baixo não está reservado unicamente à esfera monetária. É um fenômeno econômico de enorme amplitude, que deriva de múltiplas causas, e que, em termos gerais, tem um estreito vínculo com as raízes mais profundas da crise que começou há mais de seis anos.
 
É preciso lembrar que, a partir da quebra do Lehman Brothers, em 15 de dezembro de 2008, e até a contração do crédito no plano internacional nos meses seguintes, perderam-se cerca de 8 milhões de postos de trabalho nos Estados Unidos. A taxa de desemprego alcançou 10 pontos percentuais e a atividade econômica se contraiu. A falta de liquidez em um dos maiores bancos de investimentos de Wall Street detonou uma crise global de enormes proporções. Foi até meados de 2009 quando, em termos estatísticos, o Escritório Nacional de Pesquisa Econômica (NBER, em sua sigla em inglês), apontou que a economia norte-americana havia superado a recessão. Em meio à crise, a queda dramática da inflação levantou preocupações na Casa Branca. As ameaças de uma espiral deflacionária estão à vista.
 
Como consequência, o Departamento do Tesouro e o Fed executaram ações enérgicas para reativar o crédito, basicamente por meio de um aumento do montante dos programas de estímulos monetários, focados, por sua vez, em deputar o endividamento privado dos balanços contábeis das corporações financeiras e não financeiras. Contudo, as compras combinadas de ativos hipotecários e bônus do Departamento do Tesouro aumentaram exponencialmente a folha de balanço do Fed, e com isso potencializaram em boa medida os riscos de uma queda de preços. Entre agosto de 2007 e 5 de novembro de 2014, os ativos em posse do Fed aumentaram em mais de 500%, ao passar de 870 bilhões de dólares para 4,486 trilhões de dólares.
 
E em que pese seu apoio irrestrito, o capitalismo norte-americano tem sérios problemas para encontrar espaços de rentabilidade. Não existem novos projetos de investimento em nenhum lugar do território norte-americano que, com base na inovação tecnológica, permitam observar uma fase expansiva do ciclo econômico. Ao longo da última década, a indústria norte-americana não supera a classe entre 79 e 81% de sua capacidade instalada. Embora durante 2012 e 2013 o índice tenha se recuperado em comparação com 2007 e 2008, ainda está muito abaixo dos níveis alcançados na década de 1990, quando alcançou 85% em 1994.
 
A chamada “recuperação norte-americana” (alguns economistas ortodoxos se atrevem inclusive a chamá-la de “desacoplamento”) está mais no aumento dos principais índices da bolsa de valores de Nova York e menos na melhoria substantiva das condições de vida da população. Inclusive, na esfera financeira, surgiram novas barreiras para a acumulação de capital. Se é certo que o índice Standard & Poors (que cotiza as ações das 500 maiores empresas dos EUA) continua registrando aumentos, a acumulação de lucros por ação e dividendos é cada vez menor.
 
Dessa forma, salta aos olhos uma maior propensão ao risco por parte dos operadores e uma volatilidade crescente dos preços no mercado de capitais, segundo o Banco Internacional de Pagamentos (BIS, em sua sigla em inglês). Os fluxos constantes de fusões e aquisições demonstram isso. Sucintamente, o aumento exponencial das operações do sistema bancário na sombra nos EUA, alertado pelo próprio FMI há algumas semanas, evidencia, por um lado, a competência crescente entre capitais individuais numa batalha de morte pela obtenção de uma maior rentabilidade e, por outro lado, as limitações para regular a atividade financeira de novo cunho.
 
O curso da economia norte-americana nos meses recentes manifesta uma vez mais que os lucros extraordinários no mercado de valores têm uma relação inversamente proporcional com a evolução das condições do mundo do trabalho. De acordo com as estimativas realizadas pelo Departamento do Trabalho, ao longo de 2014 aproximadamente 2,95 milhões de empregos foram recuperados, dos quais 252 mil corresponderam a dezembro, quando a taxa de desemprego fechou em 5,6%, o nível mais baixo dos últimos 5 anos. Sob essa mesma perspectiva, os EUA teriam aumentado 2 milhões de postos de trabalho anualmente desde 2010.
 
No entanto, essas cifras contrastam com a deterioração estrutural do mercado de trabalho que, diga-se de passagem, também contribui para consolidar a tendência deflacionária. Em primeiro lugar, a População Economicamente Ativa (PEA) está atualmente em 62,7%, o registro mais baixo das últimas 3 décadas. Em segundo lugar, existem sérias dificuldades na absorção da força de trabalho: 7 milhões de pessoas são empregados de meio período e a taxa de desemprego entre os jovens está em mais de 15%. Em terceiro lugar, a contenção salarial neutraliza de modo espantoso os efeitos multiplicadores da ampliação do mercado interno e a redistribuição da renda sore o crescimento econômico: os salários caíram 10 pontos percentuais na composição do Produto Interno Bruno (PIB) entre 1967 e 2013. os salários caíram nos meses recentes e a renda das famílias não alcança os registros prévios à crise. A dívida dos lares se mantém elevada e a polarização de classe aumenta.
 
Apesar disso, o governo norte-americano insiste em divulgar opiniões contrárias através da imprensa hegemônica (The Financial Times, The Wall Street Journal, The New York Times, Bloomberg, Reuters, etc.): a economia se fortalece de maneira acelerada e, com isso, os riscos em torno de uma conjuntura crítica são cada vez mais remotos.
 
“[Graças a] uma economia em crescimento, a uma diminuição dos déficits, a uma indústria transbordante e a uma produção energética no auge, saímos da recessão com mais liberdade para escrever nosso próprio futuro do que qualquer outra nação na Terra […] a sombra da crise passou […] a recuperação está tocando mais e mais vidas”, sentenciou o presidente Barack Obama durante sua mensagem do Estado da União diante do Congresso norte-americano, no último dia 20 de janeiro.
 
Todavia, as condições intrínsecas à dinâmica capitalista acabarão por fazer calar o discurso da dominação de classe. O fantasma da deflação se faz cada vez mais presente na economia norte-americana e, mais cedo do que tarde, acabará revelando todas as suas forças. (Tradução: Carta Maior)
 
Ariel Noyola Rodríguez, Economista da Universidade Nacional Autônoma do México. Twitter: @noyola_ariel.