As manifestações ocorridas nas últimas duas semanas contra os Estados Unidos num grande número de países todo o mundo, muitos deles localizados no Norte da África e no Oriente – Médio, em protesto contra um filme que deprecia a figura de Maomé, chamam a atenção para um fenômeno muito mais amplo e profundo que se difunde em todo o mundo: a crescente antipatia pelos Estados Unidos.
 
 Por certo, que a grande mídia mundial, sob a influência do poder norteamericano, procura situar tais manifestações na esfera de episódios isolados e localizados, produzidos em função de questões superficiais ou da ação de pequenos grupos. Agora mesmo buscam atribuir  esse caráter aos assassinatos  no consulado dos Estados Unidos em Bhengazzi , Líbia,  do embaixador ( que teve papel importante no derrubada recente de Kadafi e seu governo) e de mais três funcionários do consulado.
 
 Há fortes razões para afirmar que essa interpretação, demasiado reducionista, é apenas uma tentativa de mascarar a consciência crescente no mundo, especialmente nos países periféricos, de que os Estados Unidos constituem atualmente uma ameaça permanente para o resto do mundo, na medida em que seu inegável poder nas esferas econômica, ideológica e política é utilizado de forma cada vez mais escancarada para impedir a ascenção de outros países no cenário internacional e para combater supostos inimigos em seus próprios territórios.
 
 Nesse contexto mais geral, é que se situa a propagação de protestos em função de episódios aparentemente carentes de importância, os quais funcionam como meros deflagradores de  insatisfações  que derivam do sentimento  de rechaço à atuação dos Estados Unidos.
 
 O sociólogo Zigmunt Bauman(1) ao  referir-se às rebeliões que puseram abaixo vários governos ditatoriais na chamada “primavera árabe”, menciona as ilustrativas palavras de um parlamentar iemenita de oposição, ao relatar que não são as pessoas que estão com medo de seus governos, os quais se submeteram às  ‘forças globais’ em troca de se omitir das obrigações com seus próprios povos.“ É o oposto. Agora, o governo e suas forças de segurança estão com medo do povo. A nova geração, a geração da Internet é destemida. Eles querem seus plenos direitos e querem uma vida- uma vida dignificada”. Acontece que esses governos que estão sendo afastados por revoltas populares têm sido sustentados pelos Estados Unidos e o ódio popular a eles dirigido transfere-se automaticamente para esse país.
 
 Com o término da “Guerra Fria”, a antiga União Soviética saiu da propaganda e da imaginação popular como o suposto grande inimigo da civilização a ser combatido e sobre o qual  se concentrava o ódio popular pela suposta ameaça que representava à Liberdade. Os Estados Unidos, então, colocavam-se como o grande protetor do mundo livre e de suas conquistas sociais, mormente os benefícios associados ao Estado de Bem-estar- social e à democracia.
 
 O avanço do processo de globalização, com seus efeitos deletérios sobre as condições de vida das populações, ao lado da crescente agressividade das ações econômicas, políticas e militares dos Estados Unidos no plano internacional, em circunstâncias de maior acesso das populações à informação graças a INTERNET, tem conduzido à focalização da atenção das populações nesse país, como a principal origem dos problemas que afligem o mundo.  O que ocorre, não sem razão, por que ali se localiza a principal fortaleza do capitalismo globalizado e o principal centro de poder militar do mundo.
 
 No plano econômico, as grandes corporações norteamericanas, especialmente  financeiras,  têm sufocado as atividades econômicas locais e as aspirações de bem-estar social das populações dos países mais frágeis, inclusive de alguns considerados desenvolvidos como Grécia, Irlanda, Espanha, Itália e Portugal. Se por um lado, as grandes corporações contribuem para a expansão da produção, por outro o fazem aumentando as desigualdades sociais e gerando o aparecimento de quadros de endividamento que condenam esses países a subutilizarem seu potencial produtivo e a manterem altos índices de desemprego. Esse padrão de expansão acaba sendo o principal responsável pela incapacidade dos governos de encontrar solução para os problemas de suas populações, na medida em que submete o poder político ao poder econômico das grandes corporações.
 
 No plano político, diretamente ou sob a liderança dos Estados Unidos, às vezes sob falsos pretextos, não somente são aplicadas sanções econômicas e promovidas guerras de agressão. São exemplos notórios dessa conduta: as invasões do Iraque e do Afeganistão e o boicote econômico que,  há mais de meio século, realizam contra Cuba; e as sanções econômicas que iniciaram recentemente contra o Iran. Além disto, são realizadas regularmente ações de agressão por agências secretas do governo norteamericano que, em muitos casos utilizando forças mercenárias, matam líderes de oposição, promovem a tortura, desrespeitam a soberania dos países com a realização de verdadeiras operações de guerra em seus territórios, mantêm prisões em locais secretos fora , etc.
 
 Não seria exagero dizer que o país mais poderoso do mundo tornou-se refém de seu poder militar e que, paradoxalmente, vive com medo das populações dos demais países,  o que somente reforça seu sentimento de insegurança e a necessidade de tornar-se mais agressivo e mais presente militarmente no resto do mundo. Num verdadeiro círculo vicioso.
 
 Nada menos do que 500 bases militares norteamericanas são mantidas atualmente no resto do mundo. A “guerra ao terror”, desencadeada pelos Estados Unidos,  depois do lamentável episódio das Torres Gêmeas, é uma guerra contra qualquer um e, portanto, contra todos que se oponham aos propósitos desse grande país.
 
 Chamam a atenção o caráter belicoso do governo norteamericano diante do brutal assassinato de seu embaixador na Líbia, quando o presidente Obama e a Secretária de Estado Hillary Clinton declaram em tom ameaçador que “será feita justiça”, trazendo à mente o lamentável episódio do assassinato de Bin Laden,  no qual o Presidente Obama e seus auxiliares se reuniram numa sala para assistir pela televisão o trucidamento do chefe da Al Kaeda, num ato de violação da soberania do Paquistão, para a realização de uma de vingança primitiva, que certamente discrepa do que se esperaria da política externa da maior potência econômica e militar do mundo.
 
 Se a isto se adicionam os assassinatos frequentes de líderes populares que se opõem às ações do governo dos Estados Unidos e mesmo de pessoas comuns, conforme vídeo que circulou recentemente na INTERNET, especialmente com os “drones”, aviões não tripulados, ficam evidenciadas várias razões que explicariam a crescente aversão existente entre as populações do mundo contra os Estados Unidos. Não poderia ficar de fora a atitude do governo dos Estados Unidos, claramente prejudicial ao resto do mundo, de franca omissão frente aos esforços da comunidade internacional para limitar os efeitos daninhos ao clima da terra, derivados do aquecimento global. Isto, em circunstâncias de ser esse país a principal a fonte de lançamento de gases de carbono na atmosfera.
 
 Evidencia-se, pois que há fortes razões para que cresça o sentimento antiamericanista no mundo e que os episódios de violência a que dá origem, especialmente nos países mais pobres, sejam cada vez mais freqüentes, constituindo atos de desespero diante dos obstáculos com que se defrontam suas populações para enfrentar os problemas econômicos e sociais que os afligem e como reação às agressões a que têm estado sujeitos de parte da maior potência do planeta.
 
 Brasília, 24 de Setembro de 2012.
 
(1) Em “Isto não é um Diário”, p. 183.  Zahar Editores (2012)
 
 
 Flavio Lyra  Economista. Cursou o doutorado de Economia na UNICAMP. Ex-técnico do IPEA.