Do megafone à internet, em cada momento histórico a juventude é o segmento da sociedade que procura utilizar de forma mais criativa as modernas ferramentas de comunicação para se expressar.
 
A relação juventude x tecnologia tem uma simbiose crescente. No mundo conectado pela internet, os maiores usuários da rede são jovens. E, também são estes jovens que de forma colaborativa e integrada desenvolvem novos aplicativos que potencializam a rede. A juventude alimenta a rede que se alimenta da juventude.
 
Em 1994, a internet no Brasil já era utilizada nas universidades e em instituições públicas e privadas. O acesso comercial chegou mesmo em 1995. São aproximadamente 18 anos de ingresso na web, o que nos permite dizer que já existe toda uma geração digital no país.
 
Para essa geração, a internet é algo natural, que faz parte da sua vida, tanto quanto para gerações anteriores eram naturais o rádio e a televisão. A juventude nem imagina como seria o mundo sem a rede de computadores. Para ela não existe fora e dentro da internet de forma dicotômica. O que há é uma condição, um status momentâneo de estar ou não conectado.
 
No campo da atuação política e social dessa juventude – a partir da perspetiva de quem é nativo digital – não há contradição entre redes e ruas. Há formas de utilização de um e outro espaço para potencializar a mobilização em torno de causas, para tecer redes de colaboração em torno do desenvolvimento de políticas variadas, para viralizar opiniões e contra-opiniões e dar visibilidade a projetos e ações.
 
É dentro desse contexto que deve-se discutir como tem se dado o ativismo político da juventude e quais os desafios para ampliar o protagonismo juvenil.
 
A primeira questão é reconhecer que movimentos juvenis tradicionais – entidades estudantis, organizações políticas ligadas aos movimentos sindical, sem-terra, de luta pela moradia, partidários e outros – mesmo que atualmente sejam formados majoritariamente pela geração digital, ainda trazem consigo vícios de organização da era analógica e, portanto, ainda encontram resistências para a utilização plena da internet.
 
Os que têm maiores dificuldades de superar essas resistências se deparam com situações variadas de refluxo da atuação política, barreiras para ampliar sua base de atuação e, em alguns casos até de isolamento social.
 
Um desafio que está colocado, neste campo, é rever práticas enraizadas e ousar para integrar linguagens e plataformas com o objetivo de ampliar o diálogo com novos atores sociais, extrair da internet ao máximo suas possibilidades de mobilização e organização. Exemplos de iniciativas interessantes foram desenvolvidas pelo Levante Popular da Juventude – jovens do movimento popular ligado ao campo – em apoio à instalação da Comissão da Verdade no Brasil, que apura crimes cometidos durante a ditadura militar; e nas mobilizações do movimento estudantil em defesa da destinação de 10% do PIB brasileiro para a Educação.
 
A segunda questão é constatar que nos últimos anos surgiram novos movimentos a partir da própria lógica digital. O cyberativismo, o movimento hacker, de cultura digital, do software livre e tantos outros que se estruturaram a partir da internet e construíram redes nacionais com uma agenda política própria, em algumas situações apartada da agenda dos movimentos tradicionais.
 
Temas como Educação, Saúde, Moradia e Meio-Ambiente, apesar de continuarem na agenda política da sociedade e, em particular da juventude, dividiram espaço com a luta pela livre circulação de conteúdos na internet, pela garantia do acesso à Banda Larga, contra projetos de restrição como SOPA, PIPA (em âmbito internacional) ou contra o AI-5 Digital no Brasil. A pauta da inclusão digital e a reivindicações de políticas públicas mobiliza a juventude que tem na internet uma dimensão importante da sua vida.
 
É indiscutível que as redes sociais, blogs e páginas da internet têm tido papel fundamental na discussão destes temas, como ferramenta de preparação e mobilização de eventos, atividades e manifestações das mais variadas.
 
Avançar na compreensão de que a internet é ferramenta e que a juventude pode e deve utilizá-la como mediadora de ações e debates é fundamental para não cair em falsas avaliações, como as que reputam à internet o papel de transformadora social. Não é a internet que transforma, mas as pessoas que, se utilizando dessa ferramenta de comunicação – e de outras mais tradicionais – podem transformar a realidade.
 
Mesmo os movimentos que surgiram na rede possuem seus espaços de contato presencial, encontros, festivais, fórum temáticos. Experiências como o da Casa de Cultura Digital, da Rede de Pontos de Cultura, do Coletivo Digital, o Mega Não, da Casa Fora do Eixo e tantos outros mostram que redes e ruas são irmãs que caminham lado a lado.
 
Twittaços, mobilização via facebook, abaixos-assinados digitais, e o uso da rede como organizadora da ação política são ferramentas cada vez mais utilizadas pela juventude. Crescem os movimentos digitais que nascem de organizações juvenis ou que surgem de forma espontânea na rede e ganham as ruas. Ou, também, que nascem nas ruas e ganham musculatura na rede, mostrando que de fato não há contradição entre o offline e online
 
A realização, no Brasil, de três encontros nacionais de Blogueiros Progressistas e de um Encontro Mundial de Blogueiros também mostrou que o ativismo digital precisa de potência e integração para interferir de forma consoante e dinâmica na conjuntura política. Integrando a agenda digital com a agenda política nacional a partir de uma bandeira importante que as relaciona: a luta pela direito à comunicação.
 
A discussão de um novo marco legal para as comunicações no Brasil, realizada a partir da perspectiva do direito e, portanto, que resguarde a liberdade de expressão, que afirme a necessidade de ter políticas para universalizar o acesso à internet Banda Larga e desenvolver programas de inclusão digital, que se paute pela indispensável pluralidade e diversidade para aprofundar o debate democrático é uma agenda central e que precisa envolver com protagonismo a juventude.
 
– Renata Mielli é jornalista, secretária geral do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé e coordenadora de comunicação do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação – FNDC.
 
Artigo publicado em espanhol na edição de julho (477) da revista da ALAI "América Latina en Movimiento" sobre o tema "Juventudes em cena". http://alainet.org/publica/477.phtml