‘Ah, como é difícil tornar-se herói
Só quem tentou sabe como dói
Vencer Satã só com Orações’
Aldir Blanc
 
O médico e psicanalista Sigmund Freud nos alertara, ainda nos anos 20, sobre um certo ‘mal-estar da civilização’. Esse ‘mal-estar’, desde essa época, veio se ampliando como se a sociedade ocidental (burguesa, industrial, branca e machista) começasse, inconscientemente, a se dar conta dos pés de barro em que se assentavam os seus próprios mitos.
 
Pouco antes da afirmação de Freud, em 1912, se dera o naufrágio do navio Titanic. As repercussões do naufrágio do Titanic são mais amplas do que sugere a tragédia dos vitimados. Ainda hoje ele repercute como demonstra o êxito das sucessivas versões de filmes que se reportam ao episódio.
 
Ora, o naufrágio do Titanic trás à reflexão todo o significado do mito moderno-colonial da dominação da natureza. Afinal, com aquele transatlântico estávamos diante de um moderníssimo artefato da ciência e da tecnologia destinado ao desfrute do bem-estar que a civilização moderno-colonial nos promete desde o século XVIII.
 
Todo um aparato de mídia fôra montado para fazer repercutir mais uma afirmação do poder civilizatório do homem (europeu, burguês, macho e branco), assim como já vinha se tornando moda, desde o século XIX, as grandes feiras e exposições da indústria, cada vez mais o locus prático da moderno-colonialidade técnico-científica. Logo após a partida da moderna nave, ainda sob os efeitos dos brindes de champagne e dos discursos saudando mais este feito da razão técnica, o Titanic se choca com a natureza, ali sob a forma de um iceberg, e naufraga. O espanto é geral! O mesmo aparato midiático que havia sido montado se vê obrigado, consternado, a repercutir uma tragédia com ingredientes pouco comuns como este, por estarem envolvidas pessoas não comumente implicadas em tragédias, como aqueles que ocupavam o andar de cima não só do navio, mas da sociedade. 
 
Ainda na primeira guerra (1914 a 1918) pudemos observar modernas tecnologias recém inventadas, como a dos aviões, serem usadas, pela primeira vez de modo amplo, para bombardear campos, cidades e, menos se diz, pessoas. Avancemos um pouco no tempo e, numa outra guerra, a de 1939 a 1945, novamente envolvendo as populações dos países europeus, veremos, desta vez, cientistas responsáveis pelo conhecimento de ponta da ciência moderna, diretamente implicados na construção de um artefato capaz de destruir todas as formas de vida no planeta – a bomba atômica. Lançada sobre Hiroshima e Nagasaki, o artefato nuclear passará a ser expressão do poder de uma nação, seja para se impor, seja para se defender.
 
Sem dúvida, podemos dizer que após 1945 passamos a viver sob o espectro da morte, sob a ameaça nuclear. Dentro dessa ordem de coisas não deixam de ter razão aqueles que propugnam pela construção da sua bomba atômica, como setores entre militares brasileiros, indianos, chineses e iraquianos, entre outros. Afinal, por que só as grandes potências haveriam de ter o direito de vida e de morte sobre quem quer que seja e sobre o que quer que seja [1]?
 
O artefato nuclear é um produto daquilo que está no centro do imaginário da moderno-colonialidade: a razão técnica e científica. Emerge na interface dos que detêm o poder de decisão hoje no mundo com a comunidade científica, que seria a responsável por realizar a emancipação humana através do conhecimento dos mistérios da natureza. O lançamento da bomba atômica, em Hiroshima e Nagasaki, nos foi apresentado como resultado de uma avaliação (quantitativa) de custos e benefícios de vidas humanas poupadas vis a vis as que seriam vitimadas, descontadas, obviamente, as vidas dos que eram próximos aos que calculavam. Não havia, por exemplo, nenhum japonês envolvido no Projeto que elaborou e decidiu lançar a bomba atômica. Embora houvesse alemãs, a principal potência militar contra a qual se lutava, não foi sobre a Alemanha que se lançou a bomba. Já sabemos dos cálculos de custos e benefícios e da eficácia dos investimentos para dizimar vidas nos campos de concentração nazistas. As Câmaras de gás foram construídas para matar em escala industrial. Tudo feito em nome de uma racionalidade técnica e científica. A racionalidade instrumental calculista não poderia ter ido tão longe. A razão não está tão tranqüilamente desprovida de irrazão como gostaria e se acredita. Com certeza, a razão técnica e científica (européia, burguesa, branca e machista) levou longe demais a separação entre razão e emoção, entre fatos e valores. A dominação da natureza, idéia-mestra instituinte da sociedade moderna, pode nos levar à destruição de todas as formas de vida. A partir de então não será mais possível uma Ciência sem Consciência, uma Ciência dissociada da Filosofia, enfim, dissociar-se fatos de valores [2]. Ciência e Ética, Ciência e Política, Ciência e Arte devem voltar a se encontrar. É nesse contexto de um mundo marcado pelo espectro da morte que emerge, paradoxalmente, um forte movimento que luta pela vida.
 
O otimismo nos benefícios que a Ciência e a Técnica nos trariam já não mais goza da confiança que gozava. O início dos anos 50 nos anuncia, ainda, a contaminação de peixes por mercúrio na Baía de Minamata, no Japão, que veio matar homens, mulheres e crianças que deles se alimentavam, caso que se tornará emblemático e que nos alerta que estamos imersos em sistemas complexos, não redutíveis aos reducionismos disciplinares de corte cartesiano, a que nos havíamos habituado pela crença acrítica na razão instrumental. Enfim, os humanos não escapam das cadeias tróficas como um ingênuo antropocentrismo acredita.
 
Afinal, a moderno-colonialidade, com a ciência e a técnica, nos prometera progresso material e menor sofrimento, poupando-nos dos trabalhos pesados e enfadonhos e nos proporcionando uma saúde melhor numa vida prolongada. A Ciência e a Técnica, com o iluminismo, nos prometem a emancipação e, nisso, substituem a Religião que, também, nos promete a libertação num mundo de paz e salvação – o paraíso. Não nos equivoquemos acreditando que uma nos promete o paraíso nos céus, a Religião, e outra, na Terra, a Ciência e a Técnica. A Teologia da Libertação, por exemplo, vai se inspirar em grande parte no Marxismo, que se quer uma visão científica da realidade, para fazer o paraíso aqui na Terra, evitando a fome, a miséria e o sofrimento.
 
Muitas das certezas que permeavam as práticas da comunidade científica estavam fundadas na crença na existência de leis gerais, na redução do complexo ao simples (método analítico), no princípio de determinação ou de causalidade (causa e efeito), na certeza sensível, na separação entre razão e emoção (paixão), do sujeito e o objeto, de natureza e homem (sociedade) e, conseqüentemente, na eficácia da separação entre as Ciências Naturais e as Ciências Humanas.
 
“O grande êxito da ciência européia moderna foi a simplificação da complexidade. O conhecimento abstrato, normalizado, dominou os particulares êxitos e processos naturais. Sabemos agora que por este êxito pagou-se um preço.
 
A crença dos fundadores da ciência moderna foi que a ignorância seria superada pelo poder da razão. A incerteza seria resultado das paixões humanas. A tarefa da ciência era a criação de um Método que asseguraria a separação entre a razão e a paixões. Seu objetivo era descobrir os puros fatos ‘duros’, não contaminados por sistemas de valores ‘brandos’.
 
O incipiente método científico incluía os seguintes pressupostos: o sistema da natureza podia ser dividido em componentes isolados quase estáveis, e os objetos de estudo podiam ser separados do sujeito que os estudava. Isso deu como resultado una ciência dividida em disciplinas (que é a base do sistema universitário) e ao mito de uma ciência neutra, livre de valores, que legitima os especialistas. Ao mesmo tempo em que a Europa conquistava novos mundos, a ciência moderna conquistava a natureza: ambas as conquistas estão relacionadas” (Funtowicz y de Marchi, 2000: 58).
 
E o êxito dessa ciência
 
“deu ao Estado moderno um modelo legitimador para a tomada de decisões ‘racionais’. O descobrimento dos fatos verdadeiros levava a tomar as decisões corretas. Em outras palavras, o Verdadeiro conduzia ao Bem. A racionalidade se converteu em sinônimo de ‘racionalidade científica’ e o conhecimento foi sinônimo de ‘conhecimento científico’. Outras formas de conhecimento e outros apelos à racionalidade, como o conhecimento prático agrícola, medicinal ou artesanal, foram considerados de segunda categoria’ (Idem, ibidem: 59).
 
A certeza que o conhecimento científico revelava as verdadeiras leis da natureza e, por isso, se constituía num conhecimento superior, legitimava a expansão pelo mundo dessa razão técnica e científica que, assim, estava autorizada a dominar a natureza, inclusive, outras culturas e outros povos que, também, eram assimilados à natureza.
 
Os avanços científicos foram abrindo novos domínios para a inovação tecnológica que, no entanto, trazem potenciais conseqüências para a saúde humana e do planeta. Estes avançados campos de conhecimento trazem consigo muitas esperanças para a humanidade, mas ao mesmo tempo, 
 
‘trazem novas ameaças à sociedade e novos desafios para assegurar a qualidade do processo de decisão acerca das inovações a adotar. Uma característica dos novos domínios das inovações científicas é sua intervenção em processos biológicos complexos e ecossistemas, onde é quase impossível assegurar a qualidade em termos de resultados. Esta dificuldade requer certa reflexão. Durante muito tempo se reconheceu que as atividades de produção industrial, consumo e agricultura intensiva podiam produzir efeitos indesejáveis ou negativos em ecossistemas e na qualidade ambiental. No entanto, mais recentemente se tem enfatizado que algumas dessas conseqüências adversas podem ter um horizonte temporal de muito longo prazo, efeitos irreversíveis e uma difícil gestão’ (Idem: 60).
 
As ações que se fazem, hoje, no campo nuclear deixarão seus efeitos por milhares de anos, como lixo radioativo. Deste modo, legamos às gerações futuras um problema que elas não criaram para si próprias. E, acrescente-se, com uma diferença fundamental em relação ao passado na medida em que, hoje, sabemos os efeitos que provocaremos no futuro, o que não era o caso dos efeitos que sofremos por decisões tomadas no passado como, por exemplo, a opção por uma matriz energética fossilista (carvão e petróleo), cujo CO² lançado na atmosfera sobrevive num período calculado entre 80 e 100 anos. Afinal, essas opções foram tomadas sem que se soubessem dos seus efeitos e num clima de notável otimismo com relação aos seus benefícios. O caso do DDT nos dá um bom (ou mau?) indicador do que está por vir até porque não faltaram à época os que acusavam os efeitos que, no futuro, acabaram se comprovando. Entretanto, seu uso foi amplamente disseminado acusando-se seus críticos de serem contra o progresso e o desenvolvimento.
 
‘Hoje, devemos aceitar e internalizar a preocupação de que as intervenções científicas em processos naturais complexos podem constituir, em si mesmas, uma fonte de geração de problemas, que afetam não somente o meio natural senão, também, a saúde, o sustento da população e as perspectivas econômicas. Estes fatos são claramente observáveis nos riscos que trazem consigo a indústria nuclear e nas aplicações da biotecnologia baseadas na engenharia genética; fazendo-se, também, patente no complicado e frágil sistema de produção de alimentos e de comunicação de que dependem as sociedades modernas. Assim, muitos dos sucessos obtidos no processo de incremento da produtividade dentro da indústria agroalimentar dependem de una permanente utilização de praguicidas químicos, fertilizantes, sementes híbridas ou geneticamente modificadas, assim como de outros inputs de capital. Estes desenvolvimentos tecnológicos podem afetar sobremaneira a vulnerabilidade dos sistemas de produção alimentar ante câmbios tecnológicos, naturais ou econômicos. A produção intensiva está ocasionando também, em muitas regiões, conseqüências negativas para a qualidade das águas e solos, vendo-se afetada sua produtividade a longo prazo” ( Idem, Ibidem: 55-56).
 
Vemos, assim, que muitos dos riscos que hoje corremos vêm menos da natureza, que haveríamos de dominar, do que dos efeitos da própria relação de luta, de guerra, enfim, do combate que a ela fizemos. Hoje vemos cientistas, como Anthony Giddens e Uhl Beck, nos falam que vivemos numa ‘sociedade de risco’, riscos esses derivados exatamente do progresso técnico e científico que havia nos prometido nos libertar dos perigos da natureza ao dominá-la. Chamam a isso reflexividade.
 
Grande parte dos riscos que vivemos hoje, planetariamente são produzidos pelo próprio complexo tecnológico industrial moderno, como o efeito estufa, em parte derivado da matriz energética que tem como base os combustíveis fósseis; a ‘vaca louca’, a “gripe do frango”, a “gripe suína” (H1N1) assim como a perda de solos e de biodiversidade, são diretamente derivados da industrialização da agricultura e da criação de animais, que se acreditava uma revolução eminentemente técnica e científica. O mesmo podemos dizer da perda de diversidade cultural, neste caso, conseqüência da própria moderno-colonialidade e sua presunção universalista avessa à diferença cultural.
 
A análise que os pesquisadores vêm fazendo daqueles sistemas que consideram ‘de alto risco’ – aviação, indústria nuclear e plantas petroquímicas – nos indicam os limites do reducionismo e da crença que, sempre, haverá soluções técnicas para as diversas situações, inclusive, para os problemas criados pelo próprio uso das técnicas.
 
O acompanhamento sistemático de ‘acidentes sistêmicos’ nessas áreas de aviação, nuclear e de petroquímica tem proporcionado, sempre, a inclusão de novas variáveis tornando, deste modo, esses sistemas cada vez mais complexos. Ora, os sistemas complexos, exatamente por envolver múltiplas variáveis e complexas relações se tornam, por isso mesmo, sistemas altamente imprevisíveis. Não há como não nos lembrar aqui daquele personagem de Jorge Luis Borges que, tentando fazer um mapa que representasse o mundo tal como ele é, com o máximo de realismo, acabou por fazer um mapa do tamanho do império tornando, assim, desnecessária a própria idéia do que seja um mapa, enfim, uma re-presentação.
 
Não nos iludamos, todavia, posto que ainda é forte a crença de que a ciência e a técnica nos darão as soluções para os problemas gerados pela intervenção desse mesmo sistema técnico-científico. É só uma questão de tempo, nos dizem. Já vimos que o conhecimento é feito em instituições próprias, situadas em lugares próprios, por pessoas propriamente destinadas a esse labor de quem os não-cientistas, isto é, os cidadãos comuns devem esperar que venham as soluções. Aliás, se não for dessa fonte de conhecimento técnico e científico já estará, previamente, desqualificada seja como senso comum, seja como saber tradicional, ou como crendice e quetais. É bom relembrar que todo esse sistema de crenças não é somente um sistema de crenças posto que ele é co-instituinte das práticas naturalizadas em instituições que, como tais, foram  instituídas por processos históricos através de sujeitos de carne e osso. Fosse somente um sistema de crenças seria substituível por outro sistema de crenças e tudo se passaria no mundo sobrelunar das crenças, das idéias.
 
A ciência feita técnica se tornou uma poderosa força produtiva com que o capitalismo colonizou corações e mentes. Proporcionou uma enorme capacidade de transformação da natureza aumentando a produção de mercadorias. A energia concentrada num átomo de carbono, tão bem estudados pela Física e pela Química modernas foi fotossintetizada e mineralizada durante um longo tempo geológico. Agora, num instante, seja num girar de alavanca de uma máquina a vapor, seja com um simples girar de uma chave de ignição explode (motor a explosão), proporcionando um aumento antes inimaginável da capacidade de trabalho, de transformação da matéria, mas, ao mesmo tempo, devolvendo a atmosfera o (CO², por exemplo) que dela havia sido retirado pelo processo de fotossíntese há milhões de anos atrás.
 
Hoje sabemos que a ‘sociedade de consumo de massas’, fruto do pacto corporativo fordista fossilista (Altvater, 1996) do ‘welfare State’, não pode ser generalizado para todo o mundo. Com isso, um dos fundamentos políticos e culturais do mundo moderno, o de que os homens são iguais, se vê incompatível com o produtivismo que instiga o consumismo, por meio dessa crença de que somos felizes pelo que consumimos, ou pelo que temos, e não pelo que somos, ou pelo que fazemos ou pelo que realizamos.
 
Os dados já são conhecidos: cerca de 20% da população mundial consome 80% dos recursos energético-materiais do planeta explorados anualmente. O consumo de massas do ‘american way of life’ globalizado implica que aquele que faça parte desses 20% more em Nova Iorque, Paris, Tóquio, Moscou, Caracas, México ou São Paulo, contribui com um impacto sobre o planeta equivalente a 170 etíopes ou 50 paquistaneses. Assim, quando nasce um bebê numa família integrada a esse consumo de massas globalizado, em Londres ou Paris, o planeta está sendo mais ameaçado do que com o crescimento da população latino-americana, africana ou asiática. No entanto, encontramos nos fóruns internacionais, inclusive ambientalistas, mais preocupação com o crescimento da população humana da América Latina, África ou da Ásia do que com o controle da população[3] de bens de consumo dos 2/3 dos ricos dos países industrializados, ou por aqueles 1/5 dos ‘de cima’ dos chamados países pobres.
 
O antropocentrismo, que autoriza a dominação da natureza, está por toda a nossa geografia real e imaginária. A vida urbana, enquanto meio ambiente construído, espaço do mundo moderno-colonial por excelência, nos livraria dos perigos da natureza, do mundo rural. Daí o urbano ser visto como superior ao rural, assim como o país urbanizado passa a ser tomado como desenvolvido, em oposição aos países que seriam subdesenvolvidos porque ainda seriam predominantemente rurais.
 
O Homem, ser racional, com o uso das mais sublimes das suas faculdades que, no mundo moderno-colonial já não mais é a Política, como era para os gregos, mas sim a Ciência e na Técnica, é o centro do mundo e deve afirmar-se como tal submetendo a natureza aos seus desígnios. Uma natureza povoada por deuses, com certeza, se colocava como um sério limite à sua dominação. Afinal, como dominar os deuses? Assim, para que a idéia de dominação da natureza pudesse se tornar natural foi preciso dessacralizar a natureza, despovoá-la de deuses, torná-la um objeto, assim como enquanto se acreditou que corpo e espírito eram uma unidade indivisível, não foi possível dissecar o corpo, como um cadáver pode ser dissecado pela anatomia. É a expulsão dos deuses da natureza, assim como o espírito do corpo, que tornará possível esquartejar a natureza em partes, torturá-la mesmo, como sugere Francis Bacon (1561-1626), para obter a verdade sobre seus mistérios. Estamos, pois, imersos nos fundamentos do mundo moderno-colonial. Sem deuses, não há mais limites para a dominação da natureza. No lugar do teocentrismo, passamos ao antropocentrismo.
 
Assim, o Homem é o Sujeito ativo e a Natureza o Objeto passivo. O Urbano, que é fruto do humano, está, por essa lógica, autorizado a dominar o rural, domínio da natureza, assim como os países urbano-industrializados estariam autorizados a dominar os países rurais e agrários. Nessa ordem de significações, não à toa, as populações dos países não-industrializados são chamadas de selvagens (da selva, portanto, da natureza) e, assim, devem ser dominadas no contexto da imaginação da moderno-colonialidade da Europa renascentista.
 
Os selvagens são, ainda, tomados como indolentes e preguiçosos, isto é, condenados por, ainda, viverem ao sabor de um tempo natural, não fazendo seu próprio tempo, como o fazem os europeus que inventaram uma máquina só para controlar o tempo – o relógio – aliás, a primeira máquina digna de tal nome (Mumford, 1977). Por isso esses povos são chamados de ‘sociedades naturais’, que vivem de uma ‘economia natural’, em oposição à sociedade ocidental (burguesa, branca e machista) que seria uma sociedade histórica. Assim, munidos de um relógio, a sociedade ocidental (burguesa, branca e machista) não só produz seu próprio tempo como, também, o impõe como parâmetro para o mundo inteiro. Ser universal é partilhar desse universo de significações que os europeus (burgueses, brancos e machistas) instituíram como parâmetro. Só assim podemos entender que se fale de países, povos ou regiões atrasadas ou adiantadas como se houvesse uma hora certa – e européia – para a humanidade se medir (eurômetro?).
 
Entretanto, experimentamos, as horas do mundo são referenciadas ao meridiano de Greenwich, subúrbio de Londres, que se coloca como o ponto zero do tempo, a partir de onde se passa a enquadrar o espaço nosso de cada dia em todo o mundo. A Europa torna-se o centro do mapa-múndi, aliás, desde 1492. Sua razão, sua concepção de espaço e de tempo se impõem como universal. Observe-se, aqui, um deslocamento na geografia imaginária, de enormes conseqüências práticas, do Meridiano de Tordesilhas, marco geopolítico da cartografia da 1ª moderno-colonialidade sob hegemonia Ibérica, para o meridiano de Greenwich, marco geopolítico da cartografia da 2ª moderno-colonialidade sobre hegemonia da Europa Norte Ocidental e, após 1945, dos Estados Unidos.
 
A partir do Renascimento, o espaço passa a ser representado por um enquadramento abstrato de coordenadas – latitude e longitude. Essa cartografia foi inicialmente elaborada por Gustavo Krammer, com sua projeção conhecida como Mercator, nome esse suficiente para indicar suas ligações com os mercadores, aqueles que estavam preocupados em controlar o espaço, porque estavam preocupados com o tempo. Afinal, tempo é dinheiro [4]. Não sem sentido o espaço é reduzido a medidas matemáticas de tempo abstrato – graus, e cada 15 graus de longitude corresponde a uma hora, a um fuso horário, onde cada grau se divide em minutos e estes em segundos.
 
Este tempo abstrato, matemático, medido em quantidade que, exatamente por ser abstrato e geral, escapa ao tempo de cada ente com sua temporalidade própria, com suas qualidades próprias, se impôs ao mundo no mesmo movimento histórico em que a riqueza deixa de estar referida a cada coisa concreta, com suas qualidades próprias, e passa a ser referida a uma expressão abstrata matemática – o dinheiro.
 
Que o dinheiro não é a riqueza, eis uma verdade que devemos levar mais a sério. Como nos sugere a mitologia grega, com seu Rei Midas, não se pode comer ou beber ouro para matar a sede ou a fome. A razão matemática é, assim, mais do que razão no sentido de uma forma de pensamento, posto que se inscreve a partir do Renascimento, e cada vez mais, no próprio tecido social como parte das relações sociais e de poder. Afinal, a partir daí, e cada vez mais, nossas relações cotidianas são atravessadas por uma lógica matemática, por uma lógica mercantil. Renascimento e Mercantilismo são parte de um mesmo ‘magma de significações imaginárias’ (Castoriadis, 1982) a partir do que a matematização surge como linguagem natural da Physis (Descartes, Galileu, Newton), como linguagem universal, na verdade, como linguagem desse-mundo-que-aí-está hoje em crise.
 
Não nos enganemos, pois, que a generalização do dinheiro como mediador universal das relações humanas seria impossível se não houvesse:
 
(1) a separação dos homens e mulheres da natureza e;
 
(2) uma divisão do trabalho generalizada.
 
Vejamos cada qual a seu momento: 1- a primeira condição se coloca na medida em que os próprios homens e mulheres, desprovidos das condições para produzirem as suas vidas, inclusive de acesso à natureza cada vez mais cercada como propriedade privada mercantil, passam a ter que vender sua capacidade de trabalho a quem queira comprá-la. Assim, pautam as suas vidas pelo que podem receber em termos abstratos, isto é, monetários, porque disso dependem para comprar as coisas concretas necessárias para viver. Como a natureza é uma condição de existência de todos os seres vivos, inclusive dos humanos, manter uma parcela cada vez maior de homens e mulheres separada da natureza é tornar natural que eles e elas, se assalariem e, assim e somente assim, o dinheiro se torna uma necessidade natural. Assim, os expulsos da terra, e mantidos nas cidades afastados dos meios necessários à produção de suas próprias vidas de um modo autônomo, se vêem constrangidos a viver por meio do salário que, como o próprio nome diz, é o sal que precisam para conservar a carne. Devem também, reproduzir a prole, a carne do futuro, proletários que são.
 
A proletarização generalizada configura um mundo geograficamente cada vez mais urbanizado, posto que a cidade é o locus por excelência da mercantilização generalizada. A cidade, afinal, exige o dinheiro como media das media. Burgueses e proletários contraditoriamente se movem em torno desse meio abstrato – o dinheiro – que se transforma nas coisas concretas. O dinheiro se torna, assim, o mediador generalizado da vida. Nasce o Homo Oeconomicus. Para os burgueses o céu é o limite; para os proletários é a subsistência que deve ser garantida através do trabalho assalariado. Observemos que o limite do dinheiro, expressão quantitativa – abstrata – é ilimitada e, aqui, se coloca um dos maiores desafios da sociedade mercantil para com a natureza e as outras culturas – ela se move em direção ao ilimitado e a natureza e as culturas que são outras, diferentes, têm suas próprias temporalidades.
 
Deste modo, se vê, mais uma vez, que não estamos somente diante de um paradigma que separa homem de natureza, que separa as ciências humanas das ciências da natureza, mas diante de uma separação prática e concreta de homens e mulheres da natureza e, ainda, de uma relação a partir daqueles que se tornam proprietários da natureza como se esta fosse, simplesmente, uma fonte inesgotável de riqueza. Assim, institui-se uma teia complexa de relações sociais e de poder dos homens entre si, entre homens e mulheres e entre os homens e mulheres com a natureza, das diferentes culturas e povos entre si, que atravessam o conjunto da sociedade e que dão suporte a esse paradigma. Os paradigmas são instituídos e parte das relações sociais e de poder. Superá-los implica sair do mundo sobrelunar e se envolver com os processos mundanos de invenção de um futuro distinto da simples projeção do passado. O presente está grávido de novas e outras possibilidades, bastando que olhemos para os múltiplos movimentos sociais que põe em xeque a ordem que aí está.
 
São múltiplos os efeitos que daí decorrem na medida em que dissolvida a vida comunitária a que, de algum modo, estavam submetidos nas sociedades que não eram (des)envolvidas (e, sim, envolvidas em si e para si mesmas) tornam-se,  cada um e todos, condicionados a se virar sozinhos, indivíduos que se tornaram. Como se pode ver, o individualismo não é só uma questão ideológica, posto que, com a dissolução das comunidades rurais e originárias, instaura-se uma competição generalizada de todos contra todos. Aquilo que o filósofo inglês Hobbes havia dito, equivocadamente, como característico do ser humano em geral, ‘o homem lobo do homem’ é, na verdade, característico da organização da sociedade burguesa que via nascer à sua frente. A competição, e não mais a solidariedade, passa a ser constitutiva das relações sociais e de poder cotidianas [5].
 
Além disso, com a expulsão e dissolução das comunidades camponesas e originárias, cada um, isoladamente, perde a capacidade de decidir sobre o que fazer tendo para se manter que se submeter às ordens de quem o contratou.
 
Aqui reside uma das principais razões dos problemas de poluição e de uso generalizados de produtos nocivos à saúde humana. Dificilmente alguém usaria substâncias tóxicas ou nocivas à saúde humana, caso pudesse decidir sobre o que, o quanto e o como vai ser produzida cada mercadoria. Sabemos que a empresa é, ainda, uma instituição onde o poder do dono é maior do que o direito democrático de todos os diretamente implicados no trabalho decidirem sobre a qualidade e a quantidade do que vai ser produzido. Na empresa, ainda hoje, preside o princípio, inaceitável na vida pública, de que as pessoas decidam de acordo com a porcentagem de ações que cada um detém, com o lugar que ocupam nas relações de propriedade e de gestão. Sem dúvida, a democratização nas empresas seria fundamental para que começássemos a despoluir o mundo! Ainda reina na empresa o princípio medieval e oligárquico da propriedade absoluta, onde se pode demitir milhares de trabalhadores porque se encontrou máquinas ou procedimentos organizacionais mais eficazes, independentemente dos que são demitidos terem que dar de comer às suas famílias. Ou que se decida usar uma substância cujos efeitos possam causar danos à vida das pessoas ou do ambiente, pois o segredo comercial coloca o direito do proprietário acima do direito á vida. A decisão não é democraticamente partilhada. À sociedade cabe discutir os efeitos, seja ele o estufa ou outros, e não as causas.
 
Assim, como nos alertara o historiador E. Thompson, a produção de necessidades se desloca da família e da comunidade e, assim, as necessidades passam, cada vez mais, a serem determinadas pelas empresas e por seus ideólogos – publicitários, marqueteiros, pesquisadores, artistas, celebridades e jornalistas – encarregados de dizer o que deve e o que não deve ser consumido. Toda uma máquina é, assim, forjada, o que levou Félix Guatarri a falar de ‘máquina de fabricação capitalística da subjetividade’. E, não nos espantemos, não existem necessidades naturais no sentido biológico do termo, posto que toda a pulsão da fome, assim como da sexualidade é resolvida das mais diferentes e múltiplas formas através da cultura. Ninguém come qualquer coisa em qualquer lugar, e os regimes alimentares inventados por cada cultura são algumas das respostas criativas dadas por homens e mulheres de carne e osso a essa pulsão.
 
2- A segunda condição, a divisão do trabalho, por seu turno, dá fundamento à mediação generalizada do dinheiro, em primeiro lugar, porque não se compra aquilo que se tem. Ou, o que dá no mesmo, quando cada qual se especializa, compra tudo o que não é especializado. Assim, se todos pudessem produzir livremente o que necessitam, e na medida em que dispusessem das condições para tal, as trocas se dariam por razões outras do que por necessidade mercantil A antropologia nos dá inúmeros exemplos de como diferentes sociedades se constituem instituindo as mais diferentes razões para o intercâmbio humano [6].
 
Cada empresa, sendo especializada, se vê na contingência de comprar tudo de que necessita, assim como cada um, não só por ser especializado, mas também por não ser dono do que produz, se vê obrigado a comprar tudo o que necessita. Até mesmo para aquele que é dono da mercadoria, pelo fato de cada coisa deixar de ser vista como uma coisa concreta que satisfaça necessidades concretas e, sim, tornar-se mercadoria, significa que já é produzida não para satisfazer as necessidades de quem a produziu [7], ou mesmo para satisfazer as necessidades do seu dono, porque já são produzidas para vender (troca mercantil) e, assim, não visa direta e imediatamente o seu uso. Nessa ordem de significações não é nenhuma contradição alguém ser diabético e, ao mesmo tempo, ser proprietário de uma usina que produza açúcar.
 
Institui-se, assim, uma dissociação entre a razão pela qual se produz e o consumo. A produção não visa o consumo a não ser mediatamente. Ainda, recentemente, numa reportagem na televisão um produtor de tomates, em São Paulo afirmava, sem nenhuma cerimônia, que borrifava o agrotóxico no seu produto porque era para vender e não para comer. E o tomate, como todo produto perecível, isto é, por estragar rapidamente, perde o valor de uso e, assim, perde o valor de troca na medida em que, estragado, não será vendido. É por isso que a indústria de alimentos, de um modo geral, usa uma série de substâncias químicas para dar sobrevida ao valor de uso para, assim, proporcionar ao produto uma sobrevida por mais tempo nas prateleiras podendo, deste modo, esperar para ser realizado seu valor de troca. Como se vê, o valor de troca, medido pelo preço – quantidade – se sobrepõe ao valor de uso – a qualidade.
 
O princípio da especialização, como assinalara Adam Smith, proporciona uma simplificação do processo produtivo e, assim, que se aumente a produção. Um saber especializado proporciona um maior aprofundamento no conhecimento de uma determinada matéria específica e, assim, um maior domínio sobre ela. Proporciona assim, ganho de produtividade individual Entretanto, o mesmo não se pode afirmar da produtividade social geral. É o que se pode constatar com o aumento dos custos de transportes, e do desperdício de combustíveis, com o deslocamento generalizado de mercadorias de um lado para o outro, como matérias primas que vão dos países (ou regiões no interior de um mesmo país) especializados em exportar matérias primas e que, depois, retornam como produtos industrializados. Sem dúvida chega a ser patético observarmos caminhões frigoríficos transportando frangos de Chapecó, município de Santa Catarina no sul do Brasil, em plena rodovia Transamazônica, no Pará, como se não fosse possível produzir frangos naquela região. A irracionalidade do gasto de energia é espetacular.
 
Aqui, mais uma vez, podemos verificar que a especialização do conhecimento não é só uma questão de paradigma, embora também o seja. Uma sociedade fundada na busca do aumento máximo da produtividade para a conquista do mercado demanda um conhecimento específico, subordinado a uma temporalidade própria, o tempo da concorrência, que tende a valorizar quem é pragmático e não quem fique filosofando. Não sem sentido, a filosofia mais disseminada é aquela filosofia que não se quer filosofia – o Pragmatismo.
 
Assim, nessa ordem de significações, mas não em toda e qualquer ordem social, tempo é dinheiro. E, dinheiro, relembremos, implica uma lógica abstrata, quantitativa, comandando o mundo prático. Há, assim, uma pressão muito concreta por conhecimento especializado inscrita nas próprias relações sociais e de poder em que se assenta a sociedade capitalista. Mais uma vez, insistimos, os paradigmas são instituídos (por um processo protagonizado por sujeitos instituintes) e não serão superados enquanto não visarmos a superação das relações sociais e de poder instituídas que lhes servem de suporte.
 
O conhecimento da natureza, independentemente do homem, ganha uma enorme importância nessa ordem de significações que empresta sentido às relações sociais e de poder burguesas. Assim, e mais uma vez, a separação das ciências naturais das ciências humanas não é só uma questão epistemológica ou paradigmática, embora também o seja. Afinal, o conhecimento da natureza aumenta o poder de dominação o que nos leva, com freqüência, a confundir o fato de conhecermos a natureza com a idéia de que a produzimos. O carvão e o petróleo, por exemplo, são energia solar fotossintetizada há alguns milhões de anos atrás e, não fôra a existência desse trabalho natural do planeta, e a Revolução Industrial teria outros caminhos.
 
Aqui não procede o argumento de que se poderia obter a energia de uma outra fonte, o que seria possível. Pode-se, como sempre, colocar-se o acento na busca do homem por conhecimento, no caso por conhecer outra fonte de energia através da ciência e, aqui, e mais uma vez, o antropocentrismo nos cega, pois esquecemos que essa outra matéria estaria na mesma fonte, isto é, na natureza[8] que a teria produzido pelo seu próprio trabalho.
 
O fato de conhecermos a composição química do carvão ou do petróleo nos proporciona, sem dúvida, uma capacidade maior de explorarmos a sua natureza, mas, atenção!, o conhecimento, como tal, não produz o carvão nem o petróleo propriamente ditos, assim como o conhecimento da água, enquanto tal, não mata a sede. Os investimentos maciços na pesquisa geológica de minérios e na formação de especialistas nessas áreas se fazem exatamente para que se tenha controle, pelo conhecimento, dos minerais e outros recursos naturais, posto que são estratégicos. Enfim, o conhecimento científico acerca da natureza, embora necessário, não é suficiente para garantir a sua dominação.
 
O conhecimento do petróleo não muda sua localização geográfica e, por isso, o Oriente Médio é, permanentemente, o que é, ou seja, além de um imenso barril de petróleo, um barril de pólvora. Afinal, se não existe trabalho sem energia, o Oriente Médio, pela grande concentração desse recurso energético, que é a base do complexo industrial atual, acaba por concentrar um recurso estratégico importante não só para o presente. Afinal, energia é a capacidade de realizar trabalho e o trabalho é a capacidade de transformar a matéria. Assim, a energia se torna uma matéria estratégica. Enfim, na falta de outra matriz energética, controlável pelas mesmas grandes corporações que controlam a atual, o controle do Oriente Médio torna-se fundamental para o futuro imediato dessas mesmas grandes corporações, de sua matriz energética e do mundo tal e qual é na sua geografia política assimétrica.
 
Insistimos, o conhecimento sobre o petróleo não produz petróleo, proporciona, sim, uma maior capacidade de explorá-lo, e esta é a razão dos conflitos envolvendo o Oriente Médio e do desenvolvimento científico-tecnológico. O controle por forças militares permanentes do Oriente Médio, enfim, esse controle pela força é a melhor demonstração da fragilidade dos fundamentos do antropocentrismo. Não basta o argumento, nem tampouco o conhecimento, para que o petróleo chegue aos países industrializados alimentando com sua energia todo o estilo de desenvolvimento que-aí-está. Afinal, quem detém o controle do conhecimento e de toda a logística capaz de explorar o petróleo, inclusive todo o complexo tecnológico, precisa controlar o território onde ele está localizado. Aqui, sem dúvida, a geografia cobra o seu tributo. Enquanto o barril de petróleo estava a US$ 25, em média, durante o ano de 2002, se despendia em forças militares na região o equivalente a US$ 75 por barril, segundo a revista Defense Monitor[9]! Ou seja, para cada dólar que se pagava pelo petróleo do Oriente Médio se pagava mais 3 dólares pelo custo militar para garantir o seu suprimento!
 
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A emergência da questão ambiental enquanto questão política, nos anos 60, trouxe consigo toda uma série de críticas aos paradigmas em que se assenta a moderna sociedade industrial. Passados cerca de 40 anos dessas críticas observamos que a maior parte delas se manteve no plano das idéias, deixando de considerar que o paradigma em crise ainda se mantém, posto que ele não é só idéia, mas está institucionalizado em práticas sociais concretas e bem mundanas, seja nas Universidades, com seus departamentos disciplinares, disciplinando corpos e mentes; seja em grupos ou classes sociais que se constituíram através desses mesmos sentidos e práticas que hoje se encontram em crise.
 
Afirmamos que é preciso ir além dessa crítica aos paradigmas, posto que os paradigmas não pairam no ar, ao contrário, estão ancorados em práticas sociais institucionalizadas. Há que se descer dos céus à terra, se queremos, efetivamente, romper barreiras.
 
Sabemos que essas idéias devem muito de sua existência a um tipo sociológico, a Burguesia, de início Mercantil e, depois, Industrial, que ganha importância desde a Idade Média. Ao contrário da Nobreza Aristocrática que cultivava o ócio, a Burguesia se caracteriza por um agir-com-vistas-a-um-fim, com um raciocínio prático de custos-e-benefícios, que nega-o-ócio, faz Negócios, movendo-se em torno de uma riqueza móvel e abstrata: o dinheiro.
 
A hegemonia de uma determinada lógica abstrata – matemática – é a afirmação dessa hegemonia burguesa sobre o conjunto das práticas sociais, inclusive de dominação da natureza. Com ela temos a instituição de uma sociedade que se move por uma lógica de acumulação de riqueza expressa nesse imaterial signo dos signos que é o dinheiro. O dinheiro, tal como os números e os deuses, na sua imaterialidade, não tem limites. Esse será um dos maiores desafios para a superação dos problemas sócio-ambientais atuais na medida em que estes sinalizam, exatamente, para os limites da relação da sociedade com a natureza.
 
O advento da máquina a vapor é, nesse sentido, emblemática. Ela se move a partir de uma energia de origem fóssil, cuja capacidade de trabalho na transformação da matéria, acreditou-se, não teria limites. Por meio do seu uso, a transformação da matéria se dará num ritmo cada vez mais intenso fazendo com que “tudo que é sólido se desmanche no ar” (Marx).
 
Observe-se que o ritmo com que bate a máquina, a vapor ou outra, é sempre igual, seja no verão, seja no inverno; seja dia, seja noite; esteja a máquina sendo manejada por trabalhadores ingleses, brasileiros, mexicanos ou indonésios, estejam eles tristes ou alegres, estejam essas máquinas operando num cerrado ou numa caatinga. O tempo na modernidade – esse da máquina a vapor – não é mais o tempo dos entes concretos – dos bichos, das plantas, dos fluxos das águas dos rios ou dos humores dos homens e mulheres de carne e osso (Thompson, 1996). Ao contrário, é o tempo abstrato que bate sempre igual em qualquer lugar. O tic-tac do relógio é indiferente aos lugares. Essa indiferença aos lugares chama-se universal.
 
Na verdade a máquina a vapor materializa uma prática que impõe ao espaço concreto do dia a dia a lógica de outra máquina, a máquina do tempo – o relógio. A máquina do tempo, todavia, havia sido uma invenção dos monastérios da Idade Média para definir as horas canônicas, cujo resultado prático era reunir os homens e mulheres para rezar. E a natureza, ali, ainda estava povoada de deuses.
 
A máquina a vapor, todavia, não se volta para os céus! A fé, que na Bíblia removia montanhas, com a máquina a vapor desce à Terra e, manejada pelo novo-senhor-todo-poderoso, o homem (burguês, branco e macho), remove, praticamente, e não mais só simbolicamente, montanhas, rios, florestas e, ainda, outros tempos, outras crenças, outras culturas.
 
Eis, novamente, um tempo próprio, abstrato, esse do relógio embutido na máquina a vapor e quem o controla dita o tempo. Foi essa ordem de significações que fez com que, junto com o relógio-máquina, a paisagem geográfica se visse povoada, também, por ferrovias cuja pontualidade de chegada e partida dos trens era admirada. Mussolini e os italianos de seu tempo se orgulhavam da sua pontualidade. Vê-se que o relógio atinge corações e mentes, torna-se habitus tornando-se essencial para que todo o espaço geográfico fosse organizado, que os habitantes de cada cidade ajustassem seus tempos, isto é, para que a sociedade como um todo pudesse se organizar, organizando seu espaço-tempo, seu habitat, inclusive. Habitat, habitus, habitante formam, assim, uma unidade em movimento.
 
Vê-se, assim, que esse Homem-Senhor-Todo-Poderoso do Renascimento não é somente o Homem enquanto uma espécie que se coloca acima de outras espécies, como uma crítica ingênua ao antropocentrismo quer fazer crer. É um homem que calcula os custos e benefícios; é um homem que visa, sempre, um mais. É o homem burguês que, cada vez mais, precisa mobilizar energias, todas as energias, para o trabalho (não há trabalho sem energia, nos ensinam os físicos). E’ aquele que nega o ócio[10], é aquele que  vive para o negócio, que chama os que se movem com outros ritmos, por outros tempos, de indolentes e preguiçosos posto que, para ele, parecem estar sempre atrasados.
 
A ‘dominação da natureza’ se constitui na idéia-mestra do novo “magma de significações imaginárias”. A isso chama-se Progresso e Desenvolvimento e, mesmo, Civilização.
 
Deste modo, esse homem-centro-do-mundo que ‘domina a natureza’ não é um homem homogêneo, onde todos são socialmente iguais para agir sobre a natureza, como uma sociologia ingênua, dominante entre os cientistas, acredita. Afinal, para dominar a natureza produziu-se, ao mesmo tempo, uma distinção entre os homens, posto que nem todos os homens têm igual acesso à natureza. A mesma propriedade privada que é afirmada positivamente é uma propriedade que priva quem não é proprietário de ter acesso ao que, na prática, é comum a todos. É como se uns fossem mais humanos que outros. E esses outros, significados como sub-humanos, tal como a natureza, devem, também, ser dominados. Assim, dominar a natureza pressupõe dominar outros homens. A espécie humana se vê, assim, cindida em classes sociais distintas, cujas contradições passam a comandar as práticas sociais. Essas práticas sociais não são naturais, aliás, como nenhuma prática social, mas sim históricas, na medida em que foram instituídas em determinadas circunstâncias e que são reproduzidas por meio de instituições historicamente criadas.
 
Resta-nos, assim, o desafio de vermos a natureza como implicada na relação dos homens entre si. O primeiro passo é considerar como as diferentes sociedades incorporam ao seu ‘magma de significações’ a diferença de gênero, a diferença biológica entre homens e mulheres. Como se vê a questão ambiental requer um pensamento complexo que não antagonize a relação dos homens (e mulheres) entre si, de um lado, e a relação do homem com a natureza, de outro, posto que, entre os próprios humanos se instituem diferentes e complexos significados para processos que se desenvolvem à revelia dos humanos, naturalmente. A diferença biológica entre macho e fêmea é significada socialmente de diferentes maneiras, o que é uma riqueza da espécie humana, na medida em que cria diferentes significados para aquilo que um certo raciocínio, que se quer atemporal e a-espacial, diz ser igual em todo lado como, por exemplo, a diferença biológica entre homem e mulher.
 
Por todo lado, é preciso um raciocínio mais complexo que não opere com as dicotomias bem características do pensamento europeu. A Nova Física, por exemplo, cada vez mais se aproxima das Ciências Humanas na medida em que admite a inseparabilidade do sujeito e do objeto, pelo menos desde o princípio de incerteza de Heisenberg.  
 
O pacto corporativo fordista, tão bem configurado no ‘welfare state’ – onde burgueses e operários poderiam partilhar uma mesma lógica – onde na linha de montagem cada operário, especializado numa única tarefa, poderia produzir tanto e de modo tão barato que, ao final, cada operário poderia ter um carro – pressupunha uma matriz energética fóssil, uma natureza-despensa inesgotável como fonte de matéria prima e um planeta com uma capacidade de suporte e de resiliência capaz de mantê-lo vivo. A julgar pelo que nos dizem Giddens e Beck, com sua ‘sociedade risco’, Altvater, com sua análise do ‘preço da riqueza’, esse projeto se mostrou inviável, ainda que não tenha atingido mais do que 30% da população mundial.
 
The dream is over. Há, no entanto, o convite de Lennon, Imagine. E, também, de Lenin que convida-nos ao sonho, alertando-nos, todavia, para que procurássemos, cuidadosamente, levá-lo à prática.
 
Carlos Walter Porto Gonçalves
Prof. da Universidade Federal Fluminense -UFF
E-mail: cwpg@uol.com.br
 
 
Bibliografia
 
ALTVATER, E. 1995 O Preço da Riqueza. Edunesp, São Paulo.
 
BOURDIEU, P. 1989 O Poder Simbólico. Ed. Bertrand, Rio de Janeiro.
 
CASTORIADIS, C. 1982 A Instituição Imaginária da sociedade. Ed. Paz e terra, São Paulo.
 
FUNTOWICZ, S. y DE MARCHI, B. 2000 Ciência Posnormal, Complejidad Reflexiva y Sustentabilidad. In LEFF, E. (Coord), 2000 La Complejidad Ambiental, coleção aprender a aprender. Ed. Siglo XXI/UNAM/PNUMA, México, D.F.
 
GIDDENS, A. e BECK, U. 1997 Modernização Reflexiva. Edunesp, São Paulo.
 
LEFF, E. 1994 Ecología y Capital. Ed. Siglo XXI, México, D.F.
 
______ 2000 LEFF, E. (Coord), 2000 La Complejidad Ambiental, coleção aprender a aprender. Ed. Siglo XXI/UNAM/PNUMA, México, D.F.
 
MUMFORD, Lewis 1977 Técnica y Civilización. Ed. Alianza Universidad, Madrid.
 
POLANNY, K. 1980 A Grande Transformação. Ed. Campus, Rio de Janeiro.
 
PORTO-GONÇALVES 1989 Os (Des)caminhos do Meio Ambiente. Ed. Contexto, São Paulo.
 
__________________ 1998 Geografando nos varadouros do mundo: da territorialidade seringalista à territorialidade seringueira. Tese de Doutorado submetida ao Programa de Posgraduação em Geografia da UFRJ, Rio de Janeiro.
 
THOMPSON, E. 1996 Costumes em Comum. Cia das letras, São Paulo
 
 


[1]     . Os europeus e os norte-americanos já mostraram não serem guardiões dignos de confiança, como se não bastassem os exemplos de serem os responsáveis diretos pelas maiores conflagrações do século passado e do início deste. Registre-se, ainda, que são os países que hoje constituem o Conselho de Segurança da ONU os maiores exportadores de armas do mundo. As guerras de 1914 e de 1939, só são consideradas mundiais pelo poder que os países hegemônicos têm sobre o mundo porque, na verdade, do ponto de vista mais amplo, essas guerras foram regionais, pouco mais se estendendo para além das cercanias da geografia européia ou do império japonês. Os países hegemônicos do sistema mundo moderno-colonial, justamente por essa condição hegemônica, envolveram o mundo inteiro na sua guerra e só por essa razão são guerras consideradas como mundiais.
[2]    – Se é que algum dia o foi, a não ser para aqueles que acreditaram numa verdade definitiva, que as matemáticas ajudariam a construir, com base numa linguagem exata. No entanto, o Fernando Pessoa já nos ensinara que “Navegar é preciso. Viver não é preciso”, deixando-nos entrever que sobre a navegação, que é técnica, cabe a precisão, mas a vida é, sempre, de viés (Caetano Veloso), enfim, não é precisa. A cultura é, sempre, um sem-sentido, se olhada de fora dos que nela vivem, mas que dá sentido aqueles que nela vivem.
[3]   – Uso aqui, conscientemente, população no sentido conceitual da Estatístico, qual seja, como um conjunto de objetos que bem pode ser uma população de cadeiras, ou uma população de coelhos, ou população de homens e mulheres da espécie Homo Sapiens Sapiens.
[4]   – O que não é o mesmo que dizer que dinheiro é riqueza como tentam, erroneamente, nos convencer, conforme esclareceremos mais adiante.
[5]   – Os educadores, num segundo momento, sofrerão quando vão se ver instados a propalar uma educação para a solidariedade, quando a sociedade está fundada em instituições competitivas. Assim, vivemos uma sociedade que, pela porta da frente, nos convida a sermos competitivos e vencedores e, pela porta dos fundos, pede ao educadores que eduquem para a solidariedade.
[6]          – Vide Karl Polanny em A Grande Transformação, ed. Campus.
[7]   – E, já sabemos, a maior parte dos produtores, por ser assalariada, já está, de antemão, desvinculada do que produz e, assim, para estes, tudo, apesar de ser fruto do seu trabalho, lhe aparece como não lhe pertencendo. Ver ‘O Operário em Construção’ de Vinicius de Morais.
[8]   – Tudo indica que, cada vez mais, os princípios da termodinâmica devam ser incorporados à análise sócio-histórica. Afinal, esses princípios nos colocam diante de questões que o otimismo tecnológico da crença no progresso nos impossibilitava de submeter à reflexão, como esse que se coloca, por exemplo, no caso de os homens terem que produzir, eles mesmos, a energia que vão utilizar no processo de trabalho (transformação), mas o trabalho de produzir essa energia já é, ele mesmo, trabalho e, portanto, dissipação de energia no processo de transformação da matéria.
[9]   – Citado pelo engenheiro Fernando Siqueira em entrevista ao jornal PÚBLICO edição de nº de junho de 2002, página 18.
[10]        – Negócio significa, rigorosamente, negar o ócio (neg+ócio).