Ollanta Humala Tasso chega a um ano de governo em meio a uma série de contradições. Somente na primeira semana de junho, a bancada do congresso Gana Peru (Vença Peru, em tradução livre), base do Partido Nacionalista Peruano, sofreu quatro baixas, chegando a cinco renúncias de congressistas que não aprovam os rumos tomados pelo governo atual.

Envolto ao conflituoso tema mineiro no país e aos confrontos na selva peruana do exército contra supostos narcotraficantes e homens do Sendero Luminoso, Humala tem mostrado pouca habilidade e abertura de diálogo. Por outro lado, evidencia extrema facilidade para dar soluções militarizadas.

Humala nesse um ano foi apenas um militar a serviço das transnacionais presentes no Peru”, define Hugo Blanco, um dos fundadores e dirigente da Confederação Campesina do Peru (CCP).

O governo peruano já contabiliza 12 mortes pela repressão policial empregada contra protestos sociais e já tem seu primeiro preso político, o alcalde (prefeito) de Espinar, Óscar Mollohuanca Cruz, condenado, num primeiro momento, a cinco meses de prisão até que se apure sua responsabilidade por impulsionar a indignação de populares contra a mineradora suíça Xstrata no final de maio.

Rosa Mavila Leon, uma das congressistas renunciantes, acusa que “o governo de Humala não tem autonomia frente às empresas de mineração e diante dos protestos contra a degradação ambiental provocada pelas mineradoras, toma posturas de ordenar Estado de Emergência e repressão policial contra a população”.

Até aqui esses gestos do mandatário peruano são notáveis pelos “250 conflitos ativos e latentes que ocorrem em todas as regiões do país, onde aproximadamente 48% são de caráter socioambiental”, aponta o cientista político Antonio Zambrano. Dados que apontam a continuidade de governos anteriores da extrema direita neoliberal peruana, como o seu antecessor Alan Garcia, que contabilizou 191 mortes em conflitos sociais.

Fujimorismo

Diante dessa postura política repressiva, analistas peruanos têm atribuído ao governo de Humala também uma presença fujimorista, consequente de um acordo político com a direita, que vem sendo costurado por meio da distribuição de cargos no governo e troca de ministros.

Humala vem limpando do palácio peruano funcionários progressistas”, aponta Oscar Ugarteche, economista peruano que trabalha no Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade do México.

Essa situação vem ocorrendo porque Humala optou em manter o poder com maior facilidade e “isso implica alianças com a direita e seus agentes que conhecem, muito mais que seus ministros de esquerda do começo de seu governo, como manejarem o Estado por dentro, porque muitos deles já trabalharam em outros governos”, reflete o cientista político Antonio Zambrano.

A principal expressão da direita é o intocável primeiro-ministro, o general Oscar Valdés, assegurado no governo de Humala por uma direita encabeçada pelo fujimorismo e as associações empresariais. O próprio general Valdés já declarou em diversas entrevistas que é a favor do “pragmatismo” do ex-ditador Alberto Fujimori. “Por isso, a permanência da esquerda no governo é insustentável porque ela destoa de todas as políticas que o governo está seguindo, que tem traído as propostas de mudança que a esquerda apoiou”, opina Carlos Monge, historiador e pesquisador do Centro de Estudos e Promoção do Desenvolvimento (Desco).

Javier Dies Canseco, deputado da lista dos que renunciaram na última semana à bancada nacionalista, revela que o comportamento de Humala após a vitória nas urnas no dia 5 de junho de 2011 já daria mostras do rumo que seguiria “quando o presidente ganhou as eleições no segundo turno, estranhamente nos comunicou de sua decisão unilateral, a de que terminaria a aliança com a bancada Gana Peru, para desenvolver suas atividades e decisões exclusivamente como partido nacionalista”.

Atualmente, dos 130 congressistas peruanos atuando, 36 seriam fujimoristas.

 

Para Zambrano, “o fujimorismo tem uma força enorme com um respaldo presente em uma grande parte do território nacional, chegando a ter 25% de eleitores cativos”.

Mudanças

 

 

 

 

 

 

 

Protesto de mineiros: repressão policial contra a população

 

Foto: Reprodução

Há uma sensação de frustração generalizada ante um presidente que foi eleito pela primeira vez na historia peruana como o mais votado em todas as províncias do país, em detrimento de Lima. “O único investimento social que se fez coerente e importante nesse primeiro momento foi à diminuição da desnutrição no Peru. Entretanto, o grande capital segue controlando a execução de um Estado subserviente aos projetos das grandes empresas no país”, aponta Zambrano.

 

Para o professor de sociologia da Universidade São Marcos, Hector Bajos, não existe nenhuma mudança estrutural de grande importância nesse primeiro ano de Humala, “não há mudanças profundas ou algo que indique isso para o futuro”.

Tampouco o propagado índice de crescimento econômico peruano, que chegou a 6% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre, significou a mudança na vida da maioria dos peruanos. “Esses dados não representam distribuição, apesar das recaídas taxas de nível de pobreza, falta muito para poder considerar que o Estado, os serviços e os direitos a que convém cheguem à população urbana e rural mais pobre do país”, avalia o advogado e pesquisador peruano Ricardo Saberón, mestre em Política Internacional e Estudos de Segurança Nacional pela Universidade Bradford.

Ainda segundo o secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores de Educação (Sute), Carlos Navas, que atua na região amazônica, umas das mais pobres do Peru, “30 % da população peruana está abaixo da linha da pobreza”.

A renda está concentrada à pequena parte da população. “A riqueza no Peru está sendo distribuída aumentando a massa da classe média nas grandes cidades do país, por outro lado, isto tem proporcionado o empobrecimento da vida no campo e forçado à migração”, conclui Zambrano.

Amazônia peruana

Outro ponto de debate central que esteve presente nesses 12 meses foram os conflitos na selva peruana, que levantaram novamente a suspeita sobre a existência ou ressurgimento do grupo armado Sendero Luminoso, aliado ao narcotráfico. Combatido na década de 1990 pela ditadura do então presidente Alberto Fujimori, o grupo teria sido em sua grande maioria, dizimado por assassinatos de seus militantes e os principais líderes encarcerados sob a pena de prisão perpétua.

Os meios de comunicação peruanos usam o Sendero Luminoso e o narcotráfico para chantagear, vender e distrair”, diz o professor Hector Bajos.

O cientista social Zambrano constrói outro raciocínio sobre a situação, “penso que existe certo exagero da mídia, mas o Sendero tem uma zona dominada VRAE – Vale do Rio Amazonas e Ene – por mais de 25 anos e dificilmente poderia ser vencido nessa região onde o narcotráfico também é muito presente, o que num processo de perda de ideologia do grupo pode ter acontecido uma aproximação com narcotraficantes”.

No entanto, Zanbrano conclui: “não creio que a pretensão do Sendero Luminoso é se expandir fora dessa zona, até porque não conseguiria”.

Na visão do especialista no assunto, Ricardo Saberón, esse grupo senderista seria proveniente das décadas de 1980 e 1990, mas com mudanças na forma de atuação. “Atualmente estariam vinculados à economia do narcotráfico, deixando de fazer massacres, assassinatos de civis como em tempos passados para focarem suas ações contra as forças armadas peruanas”.

Saberón é contra a nova denominação do grupo dada pelas autoridades peruanas e mídia limenha. “Não é correto falar em narcoterrorismo, porque não ajuda a gerar políticas públicas adequadas a essas zonas, que geralmente são muito pobres e toda ação policial, invariavelmente, é sempre apontada como intervenção ao Sendero Luminoso e narcotraficantes”, explica.

O sindicalista Carlos Navas, também observa a violência na região de VRAE como consequência da histórica ausência do Estado em programar políticas públicas, sendo presente apenas pela intervenção militar, “essa situação evidencia a inoperância do Estado em resolver problemas sociais mais elementares, como educação, saúde e infraestrutura”.

Além de falta de recursos do governo voltados à atividade agrícola, “a Amazônia peruana sempre foi descuidada pelo Estado em investimentos para projetos de desenvolvimento econômico alternativo para incentivar e apoiar as famílias para a produção de cacau, arroz entre outros”, deixando a região “vulnerável à atuação do narcotráfico que se aproveita muito bem dessa situação de abandono dos governos”, denuncia o sindicalista.

 

Marcio Zonta, correspondente em Lima (Peru)

 

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