Nos dias 9 e 10 de junho, a equipe econômica do governo anunciou três acontecimentos de extrema relevância, para o bem e para o mal.

No dia 9, o ministro Guido Mantega (Fazenda) apresentou os dados do primeiro trimestre da economia brasileira que confirmaram a chamada recessão técnica – diagnosticada após dois períodos subsequentes de redução de atividade econômica.

Em relação ao período anterior, o produto interno bruto (PIB) diminuiu 0,8%.Comparado com o mesmo período de 2008, a economia reduziu 1,8%. Nos últimos três meses do ano passado, a retração havia sido de 3,8%, com base no trimestre anterior.

Um dia depois, mais duas notícias de impacto. O Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) anunciou um recuo de 1% na taxa básica de juros, a Selic, estacionando em 9,25%. É a primeira vez que o índice sai da casa dos dois dígitos, desde o início da série histórica em 1996. Ainda no dia 10, o ministro Mantega afirmou que o país voltará a ser credor do FMI depois de 30 anos, emprestando US$ 10 bilhões ao organismo.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o economista da Universidade de Brasília (UnB), Adriano Benayon, comenta esses acontecimentos. Veja entrevista abaixo.

Brasil de Fato – Foram divulgados dados que apontam recessão do país. O governo comemorou o resultado acreditando que poderia ter sido pior, apesar de este ser um quadro que não existia há tempos no país. Qual sua opinião sobre isso?

Adriano Benayon – Não se devem analisar as coisas no curtíssimo prazo, ou seja, mês a mês. O País está em recessão há oito meses. A queda na produção foi brusca na indústria e logo se estendeu a outros setores. Nas seis regiões metropolitanas cobertas pelo IBGE, o número de desempregados atingiu, em março, 2 milhões, o mais alto em 18 meses, e a taxa de desemprego oficial chegou a 9%, a mais alta desde setembro de 2007. A queda do emprego industrial em um ano ultrapassa 5%.

Não resta dúvida de que poderia ser pior, se o Estado brasileiro não tivesse instrumentos de política, como o BNDES e outros bancos federais, e as estatais que restam, coisas criadas ou preparadas na Era Vargas, que os favorecedores do poder estrangeiro, como Collor, FHC e outros não conseguiram destruir totalmente com as famigeradas privatizações. Estas na realidade foram indecentes e ilegais doações de patrimônios construídos com a poupança brasileira ademais dos recursos naturais do próprio País. m que foi tudo doado ao capital estrangeiro.

É porque ainda existem investimentos públicos e financiamentos públicos que a economia produtiva não estagnou por completo, mesmo com a queda nas exportações, decorrente do colapso econômico mundial, que já entrou por uma depressão cuja profundidade tem tudo para ultrapassar a que durou de 1930 a 1943.

– Há tendência de retomada do crescimento, como afirma o governo? Se sim, onde ela se manifesta?

Não é provável que haja retomada do crescimento, enquanto o País não tiver um governo que assuma seu direito de dirigir a criação de moeda e de crédito para o fomento da produção, para a descentralização da economia, tanto no setor financeiro, como na indústria, na agricultura e demais setores produtivos. Quando o Estado brasileiro não aceitar mais ser saqueado por juros de dívidas desnecessariamente criadas e infladas por juros sobre juros a taxas abusivas, as mais altas do Mundo. Enquanto também não se promover gradual, mas intensiva nacionalização da economia. Pois esta foi passando quase que totalmente para as mãos de empresas transnacionais cujas subsidiárias no Brasil têm a tarefa de transferir o máximo possível de recursos às suas matrizes, a todos os títulos e por meio de todas as contas do Balanço de Pagamentos. Há que corrigir o absurdo que foram as políticas implantadas desde agosto de 1954, desde quando os “investimentos diretos estrangeiros” foram subsidiados pelo Estado brasileiro, o qual, ainda por cima, de tempos em tempos, adotou políticas de contração econômica e de restrição ao crédito para acabar com as excelentes empresas industriais brasileiras de capital nacional, que haviam crescido desde o início da primeira metade do Século 20.

– Em termos comparativos, dá pra dizer que a crise tem efeitos mais brandos no Brasil?

Sim, na medida em que os bancos brasileiros e estrangeiros com atuação no País não entraram em cheio nos derivativos e outros títulos tóxicos ligados a hipotecas nos EUA, a cartões de crédito etc. no exterior, ao contrário dos bancos do chamado Primeiro Mundo (agora em situação caótica). De fato, os os bancos daqui ficaram, em geral, satisfeitos com o saqueio que promovem sobre o Estado brasileiro, aplicando em títulos do Tesouro do Brasil às taxas mais altas do Mundo – e que só agora tem sofrido redução significativa – além de aplicar às empresas brasileiras e às pessoas físicas taxas típicas de agiotagem, deixando de entrar, em grande escala, nos derivativos e outros títulos tóxicos criados no mercado financeiro mundial.

– A redução de juros vem a calhar diante desse quadro de recessão?

Essa redução é positiva, mas deveria ser maior, mas não será suficiente para reverter o quadro de recessão econômica. É bom lembrar, em relação com o que eu disse já na primeira resposta, que se o Brasil não afundou mais para a depressão econômica é porque ainda há investimento e financiamento público expressivo no País. A esse respeito é importante salientar que os bancos privados continuam cevando-se nas mesmas fontes de ganhos financeiros baseadas, em primeiro lugar, nos títulos públicos. Eles não baixam expressivamente suas taxas de juros para o setor produtivo nem para as pessoas físicas, e pior que isso, praticamente sonegam créditos, pois temem o risco. Ademais, nunca foram de financiar as atividades de interesse para a sociedade brasileira.

– A compra de ações do FMI por parte do governo brasileiro representa algo em termos geopolítico?

O Brasil deveria afastar-se do FMI, do Banco Mundial e demais instituições controladas pelas potências hegemônicas. Delas não sai coisa alguma proveitosa para o País. O FMI só entra em algum lugar para agravar as crises de produção e de emprego, para tornar a vítima ainda mais subdesenvolvida do que estava antes de acatar suas condicionalidades. O Banco Mundial só entra para abrir caminho nas concorrências para as grandes empresas transnacionais dos países que o controlam. Outra coisa: o Brasil precisa urgentemente de se ver livre das reservas acumuladas em dólar, convertendo esses recursos, enquanto ainda valem alguma coisa (pois o dólar está sendo hiperinflacionado), seja adquirindo ouro, prata e outros metais preciosos, para preservar algum valor nas reservas, seja comprando ativos reais. É gravíssimo que a maior parte das reservas de US$ 200 bilhões esteja em títulos do Tesouro dos EUA e outros títulos em dólares, euros etc., todas moedas que tendem a perder muito valor. Se políticos e técnicos governamentais pensam que o Brasil vai exercer alguma influência nas decisões mundiais financiando o FMI e o Tesouro norte-americano, enganam-se por completo.

Fonte: Brasil de Fato
http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/entrevistas/recessao-brasileira-nem-euforia-nem-panico/