“Renuncio a um pais donde muchos no duermen de miedo y muchos no duermen de hambre” (Lugo em seu discurso de posse, citando Josué de Souza)

 

Quebrando protocolos

 

Não foram apenas as palavras emocionadas, por vezes duras, mas também envoltas em carinho e memória histórica heróica e perigosa, que marcaram a fala de Lugo na sua posse. Foram também seu “sim juro” com toda vibração de suas cordas vocais, ao contrário dos “sim” meio silenciosos de juramentos dos presidentes precedentes. Também seu discurso de austeridade veio acompanhado pelo testemunho de suas sandálias nos pés e a camisa branca da paz, sem a habitual gravata e paletó. No dia anterior já havia  anunciado a renúncia a seu salário de presidente.

 

Lugo e Chaves, em momento de descontração, no show da posse, cantaram juntos a canção “todo cambia”, para  celebrar o início de mais  um momento de mudanças no continente, na busca de transformações que dêem prevalência ao social, na construção de um socialismo com os jeitos plurais de cada país.

 

Construindo uma nova política indigenista

 

Nas últimas décadas, dominadas pelo partido colorado, os povos indígenas foram relegados à sua própria sorte, sem nenhuma política séria e conseqüente por parte do Estado paraguaio. O clientelismo, assistencialismo e corrupção marcaram os órgãos responsáveis pela proteção dos direitos dos  20 povos indígenas deste país, com uma população um pouco superior a 100 mil pessoas.

 

O Instituto Nacional do Indio –INDI, está totalmente sucateado e marcado pela corrupção, especialmente no que diz respeito às terras indígenas, cujos processos de compra estão marcados por falcatruas envolvendo uma espécie de máfia interna que se beneficiava desses processos.

 

A difícil missão de construir uma nova política indigenista, a partir da posse do presidente Lugo está em curso. A liderança Ache, Margarita, que foi candidata a senadora pelo movimento Tekojoja, é quem deverá assumir essa árdua missão.  Já se realizaram inúmeros encontros para definir a política e estratégias de ação. No domingo dia 17, se realizou mais um estudo e debate para a definição das orientações, especialmente o funcionamento do INDI, que terá que passar por profundas mudanças, desde  seu quadro de funcionários, que não passam de uma centena de pessoas, até a articulação  com outros ministérios e organizações da sociedade civil, descentralização.

 

Além dos desafios internos do INDI, será necessário construir uma unidade no movimento indígena e suas principais organizações, pois ali também existem divisões e disputas, marcadas principalmente entre os indígenas da parte oriental (majoritariamente os Guarani) e a parte ocidental, os povos indígenas da região do Chaco.

 

Há quem avalie que dificilmente terá êxito quem assumir essas estruturas tão viciadas  e comprometidas com a corrupção.

 

O recém empossado presidente Fernando Lugo não apenas tem uma grande sensibilidade e carinho para com a questão indígena, como já sinalizou sua decidida atuação para garantir os direitos desses povos. Entende que a diversidade e contribuição dos povos indígenas será sumamente importante na construção do novo Paraguai. Para tanto duas questões serão prioritárias, destacadas no seu discurso de posse: a garantia das terras indígenas e a punição de todos os crimes cometidos contra esses povos.

 

Para Raquel Peralta, coordenadora de Conapi(Coordenação Nacional de Pastoral Indígena) este é um momento oportuno para fazer as mudanças e definir uma política indigenista do governo Lugo. Talvez isso exija uma mudança estrutural mais profunda com a criação de um conselho ou mesmo ministério indígena. Entende que é o momento de unir as forças de todos os aliados dos povos indígenas para essa difícil, porém possível e necessária missão.

 

Certamente concorrerão para isso iniciativas como a elaboração de ações além fronteiras que procuram articular e definir políticas públicas para os povos presentes em vários países como é o caso dos Guarani. Iniciativa nesse sentido está em curso, por iniciativa do Ministério Público do Brasil.

 

Feliz dia da criança

 

Lugo iniciou inaugurando um novo estilo de governo ao abrir os reservados espaços do poder, aos pequenos. A Mburuvicha Roga, um espaço nobre dos governantes, teve a alegre e barulhenta presença de centenas de crianças, dentre elas indígenas, incapacitados, e crianças do Brasil e Argentina, para mostrar na pratica a intenção de construir um novo Paraguai, aprendendo com a história e a memória, mas procurando superar os traumas e genocídios.

 

Dia 16 de agosto se celebra o dia da criança no Paraguai

 

Num artigo alusivo à data , Osvaldo Zayas, no artigo “Feliz dia da criança” diz: “Mais além do heroísmo das 3.500 crianças mortas, pelas mãos do genocida exército brasileiro, na batalha de Acosta Ñu, é importante recordar as causas da guerra e suas conseqüências posteriores…A vida dos pequenos grandes mártires foi a oferenda, para um país que se negou a morrer”. Relata que a verdadeira causa da guerra foi o interesse dos ingleses em abrir o mercado paraguaio  ao “mundo civilizado”. E nesta intenção a tríplice aliança assassinou 75% da população paraguaia. Conclui o artigo dizendo “Heróis como os de Acosta Ñu não morrem. Enquanto os sonhos de liberdade, a decisão de alcançar a justiça social e terminar com a opressão sigam vivos, seguirão nascendo crianças em Acosta Ñu” (La Nacion,- 17-08-08)

 

Egon Heck – Cimi MS

 

Assuncion, 18 de agosto de 2008