As grandes tragédias sempre causam tremenda comoção. Um avião que cai, centenas de pessoas mortas, no mais das vezes por ganância do capital e das gentes contaminadas por ele. São Paulo não pode parar, os negócios não podem parar, as pessoas não podem parar. Há que produzir e produzir. Os negócios se fazem na ponte aérea e os aeroportos não podem suspender vôos um dia sequer. Caso aconteça, todo mundo dá piti. Se há obras, que se dane. Se não terminou o remendo, se não está tudo pronto, que se dane, os negócios precisam seguir. Há muito dinheiro em jogo. E, ao fim, sobra toda essa dor, de quem se foi e de quem ficou. Todo mundo pára, estupefato, diante da grandeza da tragédia. Por dias inteiros buscam-se os culpados, enquanto a vida segue, na vertiginosa roda do capital. O coelho de Alice em fuga: "não tenho tempo, não tenho tempo". Os negócios tem de seguir.

Enquanto isso, as pequenas tragédias cotidianas não aparecem nos jornais. E quase ninguém chora pelas vítimas anônimas que caem diariamente, em solidão. Digo isso para lembrar do projeto de lei que o governo encaminhou na semana passada para o Congresso Nacional. Nesse projeto, o governo cria a figura jurídica da Fundação Estatal, que nada mais é do que a privatização dos serviços públicos, a começar pelo mais paradigmático: os hospitais universitários. Amparado na mentira de que o funcionalismo é incompetente, o governo joga para o povo, através da mídia cortesã, a idéia de que tudo vai ficar melhor. Não vai. As filas da dor aumentarão com certeza. E essa dor não vai sair no jornal.

Quem tem a delicadeza de ficar durante uma única manhã na entrada de um Hospital Universitário vai ver o retrato de uma tragédia. Centenas de pessoas, vindas de várias cidades do estado – onde não existe hospital de referência – chegam aos borbotões, conduzidas pela política mais perversa de que se tem notícia: a ambulancioterapia (cujos casos de corrupção até já renderam CPI). São seres fragilizados pela doença, que desembarcam ainda mais fragilizados pelo fato de estarem num lugar estranho, conduzidas por um desconhecido, com fome e sem dinheiro para tomar sequer um café.

Os trabalhadores do HU de Florianópolis, e os demais trabalhadores da Universidade Federal de Santa Catarina que estão em greve desde há mais de 40 dias, sabem bem o que é isso. Nas atividades que fazem para informar a população sobre os perigos da privatização do Hospital eles percebem toda essa dor que se repete dia após dia. E sabem do esforço que médicos, enfermeiras e atendentes em geral, para receber bem cada um desses seres frágeis, apesar de todas as dificuldades de um hospital sempre em crise, sempre sem dinheiro, sem equipamentos, sem pessoal.

E para estes rostos em sofrimento, que encontram no HU público sua única possibilidade de melhora, seu porto seguro, ainda gratuito, o que o governo oferece? A lógica do capital! A Fundação Estatal é isso. Sendo instituída, o hospital vai ser gerido por ela, através de um contrato de gestão que levará em conta a produtividade do hospital. Mas o que é produtividade num hospital? A doença. Ou seja, a lógica vai ser, quanto mais doença, melhor. Quanto mais doente, melhor. Também abre a porta para o atendimento via plano privado. Abrem-se então duas portas de entrada. Numa entram os que tem plano privado, noutra os pacientes do SUS. E se tiver apenas um leito em disputa? Quem fica com ele? Alguém tem alguma dúvida? Quem pode mais é o cidadão-cliente (figura instituída pelo ex-ministro neoliberal Bresser Pereira). O dinheiro vai mandar.

Hoje, essa gente que desembarca sua dor e fragilidade no HU não precisa apresentar cartão privado, não precisa pagar nada. As pessoas chegam e são atendidas. Com a fundação estatal, esse povo empobrecido, que vem do interior, ou mesmo os empobrecidos da capital, vão virar seres de segunda, disputando com os que têm dinheiro. Guerra inglória. E na TV os políticos e empresários da dor afirmam com garbo: o serviço vai melhorar, os trabalhadores poderão ser demitidos, a gestão ficará mais ágil. Mas, espera aí? E as gentes? E os que nada têm além de seus corpos nus, como diria Marcos Faerman?

Pois tal e qual os donos de avião, os empresários gananciosos de toda ordem, os que pensam apenas em lucros, os que comandam o país estão se lixando para os empobrecidos, para os que nada têm, para os que precisam do serviço público. Seu negócio é tornar melhor a gestão do capital. Puro bussines. Quem precisa de serviço público que se lixe. Vão ter de pagar. Porque, afinal, para que uns vivam, outros têm de morrer. Essa é a regra do mundo capitalista. E fim!

O que eles não sabem é que alguns há, que lutam… Pode demorar, pode ser difícil, pode ninguém agora entender, mas dia chegará que as gentes saberão.. e tudo mudará!…

– Elaine Tavares é jornalista no Ola/UFSC. América Latina Livre – www.ola.cse.ufsc.br