O que está em andamento é a tomada pelo capital estrangeiro da produção de álcool (etanol) e de outros derivados das plantas. Em suma, da energia da biomassa. Esta já é uma das principais fontes do presente, e não apenas a predominante em futuro próximo. Os que a controlarem terão assegurado posição estratégica privilegiada no poder mundial, reforçada pelos fabulosos ganhos econômicos que dela fluirão.

Graças à sua excepcional dotação de território aproveitável, de água e sol, o Brasil tem o potencial de ser o maior produtor mundial dessa energia. Mas, dado o modelo econômico subordinado que se implanta no Brasil há mais de 50 anos, o País caminha para a pior das servidões, pois sua fabulosa dotação de recursos naturais está sendo explorada por transnacionais das potências hegemônicas, prontas para dominar a biomassa, como já dominam a comercialização do agronegócio.

Nada mais fácil para as corporações mundiais que abocanhar a biomassa, uma riqueza muito mais fantástica que o ouro das Minas Gerais no Século XVIII. Isso porque o Brasil é um país aberto ao capital estrangeiro, ao qual pertence a produção industrial e os demais setores da economia. Pior, obtém tudo isso com o nosso dinheiro, que o “governo” submisso lhe transfere como subsídios, ademais dos ganhos que o mercado brasileiro lhe proporciona, remetidos ao exterior por meio de mais de uma dezena de mecanismos.
O modelo político e econômico subordinado já conduziu o Brasil ao desemprego de 30 milhões de brasileiros, a vergonhosas condições de saúde e de educação, à proliferação do crime organizado, ao definhamento da classe média, à queda contínua dos salários reais, ao sucateamento da infra-estrutura e das Forças Armadas.

O País está escancarado para que transnacionais se apoderem do que será o mais estratégico e maior setor da economia mundial. Que restará ao Brasil senão revogar o decreto da Princesa Isabel de 1888, da Abolição da escravatura?

Para ser profeta basta entender o presente e as lições do passado. Há casos históricos de reinstituição do regime de servidão por se terem países especializado na produção de matérias-primas destinadas ao comércio mundial. Por exemplo, a Polônia do Século XVIII, uma grande potência no XVII, transformada em exportadora de cereais sob a direção dos comerciantes e banqueiros de Amsterdam.

Que foi feito no Brasil para facilitar a apropriação da biomassa pelos concentradores mundiais? Alijar os pequenos produtores, por meio de regulamentação instituída por imposição do Banco Mundial, o que fez centralizar a produção em grandes usinas. Assim , a cana-de-açúcar é transportada a grandes distâncias (em caminhões movidos a óleo diesel de petróleo), e o mesmo ocorre com o álcool.

Pior ainda, através de outras ações e omissões da política econômica, acabou-se com conquistas do PRÓ-ALCOOL, como a produção de motores para álcool. Hoje, com o “bicombustível” são desperdiçados quase 40% da potência do etanol, cuja octanagem supera por essa margem a da gasolina.

Quase nada se fez para desenvolver o etanol a partir da celulose da madeira e de outras fibras vegetais, o que tem potencial econômico pelo menos tão bom quanto o da cana de açúcar e mais vantagens ecológicas. A palha da cana vem sendo queimada, causando danos ambientais, em vez de ser usada como fibra para a produção de álcool ou para, junto com outros resíduos vegetais, alimentar termelétricas.

Mais grave ainda é o boicote aos óleos vegetais, cujo custo de produção pode ser menor que o do álcool e oferece desempenho duas vezes maior. Para se ter uma idéia, o Brasil poderia facilmente estar produzindo 40.000 vezes mais óleos vegetais do que o faz. Isso porque: 1) A Alemanha os produz 100 vezes mais que o Brasil; 2) a produtividade por hectare do dendê no Brasil é 17 vezes maior que a da canola (colza) cultivada na Alemanha; 3) o território brasileiro é 24 vezes maior que o alemão. Resumindo: 100 x 17 x 24 = 40.800.

Na Alemanha vende-se um kit para que os motores construídos para diesel de petróleo recebam o óleo vegetal apenas filtrado. O rendimento é o dobro do do etanol ou do biodiesel. O biodiesel vem a ser uma rendição ao poder de transnacionais da indústria automotora. Envolve retirar a glicerina, a qual, nos motores para óleos vegetais, contribui para a extraordinária potência energética do combustível.

Há tecnologia para fabricar esses motores, dos engenheiros Elsbett, na Alemanha, não usada por pressão do maior banco desse país. Os Elsbett fabricam o kit, também produzido no Paraná pelo Eng. Fendel.

A única e enorme dificuldade para que se façam as coisas certas está no governo sem autodeterminação, complacente com os interesses das irmãs do petróleo. A Agência Nacional do Petróleo impede a distribuição do óleo vegetal e limita a comercialização do biodiesel à ridícula percentagem de 2% para a mistura com o óleo diesel.

– Adriano Benayon, Doutor em Economia. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”. Editora Escrituras: www.escrituras.com.br

Publicado na Tribuna da Imprensa, em 16 de março de 2007