Um
dos pilares da sociedade moderna é que o progresso humano
advém da dominação da natureza por meio da
ciência e sua aplicação tecnológica. Desde
que James Watt, no século 18, descobriu os princípios
da máquina a vapor com uso do carvão essa idéia
vem se tornando cada vez mais concreta. É que o carvão,
e depois também o petróleo concentram um enorme
potencial de trabalho, isto é, capacidade de transformação
da matéria, e a isso os físicos chamam energia. Vem daí

a enorme importância que essa matéria adquire em relação
a outras matérias. O carvão e o petróleo são
matérias que permitem transformar outras matérias por
concentrarem muita energia e, por isso, as regiões e países
que abrigam grandes jazidas são particularmente visadas pelos
grandes complexos empresariais, em sua maior parte com sede nos
países industrializados. Na verdade, esses complexos e esses
países não podem viver sem essas jazidas que a natureza
parece ter escolhido o lugar errado para localizar. Neste caso, a
arrogância desses grandes complexos industriais e seus países
revelam toda a sua fragilidade [Ver BOX] posto que, por mais que
dominem a tecnologia, dependem de um recurso natural que não
podem produzir. Aliás, é bom que se afirme que nenhum
país é produtor de petróleo, de carvão,
de ferro ou de qualquer outro mineral, como muitas vezes nos querem
fazer crer. Nenhum país, nem qualquer sociedade produzem esses
minérios pelo simples fato de que eles são produtos da
natureza e, assim, somos extratores e não produtores

e são enormes as conseqüências de se confundir
esses dois termos. Afinal, na condição de extratores
sabemos que extraímos algo que não fazemos e, assim,
devemos nos precaver, cuidar. Ao contrário, se nos
consideramos produtores de petróleo, ou de qualquer outro
minério, não precisamos ser cautelosos no uso do
recurso na medida que podemos produzi-lo de acordo com nossa vontade.
Essa segunda visão que, infelizmente, tem predominado, no
fundo, nos leva a muitos problemas, inclusive ao aquecimento global.


A
ciência e a técnica tal como vêm sendo
desenvolvidas a partir da matriz eurocêntrica, sobretudo desde
o século 18, não têm considerado devidamente o
papel da natureza. A começar pelo fato de pensá-la
enquanto algo a ser dominado, o que sempre implica não
pensá-la como ela é, mas sim, enquanto algo que serve
para atingir fins que são alheios a ela e que, no caso da
sociedade capitalista, é a produção e
apropriação da mais valia (do qual o lucro é,
apenas, uma parte). É o que acontece com qualquer dominação,
inclusive do homem pelo homem, como na sociedade capitalista onde os
trabalhadores importam não como seres humanos com todo o seu
potencial criativo, mas sim, pelo seu potencial produtivo de mais
valia. Enfim, a idéia de dominação implica
sempre ignorar a potencialidade criativa do outro, inclusive da
natureza. Assim, as sociedades modernas sob hegemonia da ciência
e da técnica eurocêntrica tem atribuído à

natureza um papel passivo, de algo a ser dominado. Marx esteve atento
a isso criticando seus correligionários que ao fazerem o
programa do partido (Crítica ao Programa de Gotha) afirmaram
que só o trabalho criava riqueza, chamando a atenção
que não só o trabalho, mas também a natureza são
criadores de riqueza. Se o trabalho é o pai, a natureza é
mãe, nos disse Marx. Infelizmente, essa idéia não
teve maiores conseqüências teóricas e práticas,
haja vista os estragos à natureza deixados nos ex-países
socialistas e, hoje, na China.

Um
dos principais efeitos dessa subestimação da natureza é
exatamente o efeito estufa. Ele está ligado a certas leis da
termodinâmica (lei de entropia) que diz respeito, entre outras
coisas, à tendência à desagregação
da matéria e à dissipação da energia sob
a forma de calor inerente a qualquer processo de trabalho. Um motor
quando trabalha libera calor e se está demasiado aquecido, com
certeza perde a sua capacidade de trabalho. Foi para isso que se
inventou o termostato, aquele aparelho que se usa nas geladeiras, por
exemplo, que é regulado pela temperatura e que se desliga
automaticamente quando a temperatura aumenta muito e se religa quando
o aparelho volta a baixar a temperatura. Para isso inventou-se,
também, a ventoinha dos carros para esfriar o motor e permitir
que ele trabalhe melhor. Acontece que nem todos os sistemas são
controláveis pelo homem, como as geladeiras e os motores dos
carros. Por exemplo, o planeta Terra recebe diariamente uma imensa
quantidade de energia que nos chega do Sol. Essa energia trabalha
intensamente ao incidir sobre a superfície da Terra, movendo o
ar (ventos e massas de ar), evaporando as águas e promovendo
chuvas, produzindo intemperismo (sobretudo o intemperismo físico
que desagrega as rochas e contribui para fazer os solos onde, depois,
vamos plantar), proporcionando a fotossíntese que produz a
biomassa das florestas e dos campos, das plantas e dos animais, dos
nossos alimentos. Em todo esse trabalho há não só

dissipação de energia, como também vários
gases e partículas são liberados contribuindo para o
efeito estufa. Entre os gases estufa se destacam o dióxido de
carbono, o dióxido de enxofre, o monóxido de carbono,
óxido nitroso, hidrofluorcarbonos (HFC) além de
partículas em suspensão. São chamados de gases
estufa exatamente pelo fato de, ao se dispersarem pela atmosfera,
impedirem que o calor liberado pelo intenso processo de trabalho
realizado, tanto pela energia solar como pelo conjunto da humanidade,
seja liberado para fora da atmosfera, contribuindo assim para o
aquecimento do planeta.


Registre-se
ainda que grande parte do gás carbônico emitido é

absorvida pelos oceanos e mares, pelas florestas, campos, cerrados,
estepes, mangues e tundras. Grande parte do corpo das plantas e dos
animais é constituída por cadeias de carbono e, assim,
quanto maior a quantidade de biomassa por hectare maior é a
quantidade de carbono que fica retida na biosfera e não é
liberada para a atmosfera. Por isso, as florestas, em particular as
florestas tropicais, como a Amazônia sul-americana, a Lacandona
no sul do México, o Petein na Guatemala, a Mata Atlântica,
a do Pacífico sul colombiano habitada por afrodescendentes,
têm uma enorme importância para o equilíbrio do
planeta (Ver Box).


Os
gases estufa ao reter o calor dissipado a partir do trabalho da
própria radiação solar na Terra são
responsáveis pelo equilíbrio climático do
planeta tal como conhecemos até aqui. Não fossem esses
gases estufa e toda a energia dissipada iria para fora da atmosfera e
as temperaturas do planeta seriam, segundo cientistas, 30o.
C menores que as atuais. Assim, não podemos condenar o efeito
estufa enquanto tal, pois em parte é ele que permite que a
vida, tal como a conhecemos hoje, exista no planeta Terra. Toda a
questão parece estar não no efeito estufa, mas sim no
seu aumento nos últimos anos, posto que assim mais calor fica
retido entre a superfície da Terra – litosfera, a biosfera, a
hidrosfera – e a atmosfera.

Os
Efeitos do Efeito Estufa


Vários
cientistas se esmeraram em negar o papel da atual matriz energética
com base em combustíveis fósseis no aumento do efeito
estufa, dizendo que se tratava de um fenômeno natural. É
claro que mudanças climáticas ocorreram no planeta
independentemente da ação dos homens. Por exemplo,
entre 12.000 e 18.000 anos atrás as calotas polares estavam na
altura de Paris e de Nova York, no hemisfério norte, e na
altura de Montevidéu (Uruguai), no hemisfério sul. Não
foram os homens que fizeram o degelo dessa imensa massa de gelo que
levadas ao mar fizeram que eles aumentassem 100 metros, conforme nos
informa o geógrafo brasileiro Aziz Ab´Saber. Depois de
muitas discussões e controvérsias os cientistas
chegaram a um consenso que pode ser resumido na frase de Dr.a Jane
Lubchenco, ex-presidente da Sociedade para Progresso da Ciência
dos EUA, que destacou: “Nas últimas décadas, os
seres humanos se converteram em uma força da natureza”.
Mesmo o governo dos EUA que até o final dos anos Clinton vinha
negando o papel dos combustíveis fósseis no aumento do
aquecimento global do planeta, passou a admitir essa relação.
Segundo José Santamarta Flórez, diretor de World Watch,

“o dióxido de carbono presente na atmosfera (370 partes
por milhão) foi incrementado em cerca de 32% desde o século
XIX, alcançando as maiores concentrações nos
últimos 20 milhões de anos. Hoje, acrescentamos
anualmente à atmosfera mais de 23 bilhões de toneladas
de CO2, acelerando a mudança climática. Previu-se que
as emissões de dióxido de carbono aumentem em 75% entre
1997 e 2020. Cada ano são emitidos cerca de 100 milhões
de toneladas de dióxido de enxofre, 70 milhões de

óxidos de nitrogênio, 200 milhões de monóxido
de carbono e 60 milhões de partículas em suspensão,
agravando os problemas causados pelas chuvas ácidas, o ozônio
troposférico e a contaminação atmosférica
local”.


O
aquecimento climático global é o mais importante efeito
do efeito estufa. Os 20 anos mais quentes já registrados na
história do planeta ocorreram nos últimos 25 anos! As
ondas de calor recentemente ocorridas na Europa e nos Estados Unidos
revelam a gravidade do problema. Na França, em 2003, cerca de
11.000 idosos morreram por excesso de calor. Tanto o Nordeste dos EUA
como Londres sofreram pane em seus sistemas de abastecimento de
energia (apagão) em função do aumento do consumo
de energia pelo excesso de calor. São as populações
mais vulneráveis, os mais pobres e os mais velhos, que sofrem
mais na medida que não têm como comprar ar refrigerado.
Todavia, se todos compram é o sistema elétrico que é

submetido a uma sobrecarga de demanda em momentos de pico levando o
sistema ao colapso.


Além
disso, o aquecimento global e as mudanças climáticas a
ele associadas têm contribuído para uma maior
intensidade de furacões e tufões com conseqüências
graves como as que, recentemente, assistimos entre os negros de Nova
Orleãs e Luisiânia, nos EUA, vítimas não
só da ação do furacão Katrina, como
também das políticas neoliberais que cortaram as verbas
do Corpo de Engenharia da Defesa Civil daqueles estados,
proporcionado que os diques das barragens da cidade se rompessem
provocando a tragédia. Nesse caso, foram patéticas as
orientações liberais dos governos conservadores que
recomendaram que cada um se deslocasse ignorando que os pobres não
tinham como fazê-lo, por não disporem de carros.
Contrasta com isso o elogio da Onu ao modo como em Cuba o governo, em

íntima relação com a sociedade civil, coloca
todo o sistema técnico-científico para o monitoramento
do deslocamento dos furacões e toda a logística da
defesa civil para que a população se desloque. No caso
do Katrina nenhuma vítima foi registrada em Cuba!


Devemos
registrar, ainda, que o aquecimento global tem levado à
elevação do nível dos oceanos e mares o que,
atualmente, já causa problemas gravíssimos a diversas
populações das ilhas do oceano Índico e do
Pacífico. Para essas populações não se
trata de um problema para o futuro. O aquecimento global está

ali, agora.


O
aquecimento global está também entre as causas que
aumentam as implicações do El Niño, fenômeno
que está associado ao aquecimento do oceano Pacífico e
que tem contribuído para o aumento das chuvas em determinadas
regiões e das secas em outras.


Nas

últimas décadas essas mudanças climáticas
globais, em grande parte derivadas do aquecimento global, têm
provocado que tanto os invernos como os verões sejam mais
agudos, assim como as secas e as enchentes sejam mais pronunciadas.
Os incêndios em florestas vêm atingindo com freqüência
mansões na Califórnia e no Mediterrâneo e,
recentemente, uma seca pronunciada na Amazônia também
contribuiu para o aumento das queimadas, assim como para que os rios
atingissem os níveis mais baixos já registrados nos

últimos 80 anos. Em todos esses casos, por mais que os efeitos
se façam sentir sobre todos, são os mais pobres que
mais sofrem com o aumento do aquecimento global.



não se pode acusar os ambientalistas de simplesmente serem
contra o progresso como até aqui vêm insistindo seus
detratores. Ao contrário das geladeiras e do ar condicionado,
o planeta não tem termotasto para se auto-desligar. Os
ambientalistas, sobretudo os ecosocialistas, vêm lutando para
dar um pouco de lucidez a essa verdadeira insensatez que é o
atual modelo de desenvolvimento.


Efeito
Estufa, Produtivismo e Capitalismo



O capitalismo deve muito do seu
desenvolvimento aos combustíveis fósseis (carvão
e petróleo) não sendo exagero dizer que se trata de uma
sociedade fossilista. O que vem sendo feito desde que a sociedade
capitalista se conformou, ainda que de forma geograficamente desigual
de 200 anos para cá, é se aproveitar da energia solar
fotossintetizada há milhões anos atrás sob a
forma de florestas e animais que, tendo sido sepultados durante um
longo período geológico, sofreram transformações
que os mineralizaram nos dando o carvão e o petróleo
atuais. Ora, essas florestas e animais sepultados continham carbono
que, à época, foram retirados da atmosfera e que,
agora, com as máquinas a vapor, são devolvidos à

atmosfera sob a forma de monóxido e dióxido de carbono
aumentando o efeito estufa. Os países industrializados são
os maiores responsáveis pelo atual aquecimento global, muito
embora as queimadas, sobretudo de florestas tropicais tenham
importância e, nesse caso, o Brasil é o país que
mais vem se destacando negativamente no mundo. Os EUA são os
maiores responsáveis pelo aquecimento climático do
planeta e com somente 4,6% da população mundial emitem
24% do CO2 mundial (mais de 20 toneladas por habitante/ano), tendo
aumentado suas emissões em 22% entre 1990 e 2000. Esses dados
deveriam nos servir de alerta, pois indicam que o american way of
life
vendido todo dia pela mídia não pode ser
estendido a toda a humanidade. Essa ilusão é necessária
para a reprodução do capitalismo, embora seja
ambientalmente impossível realizar a promessa que a mídia
nos vende todo dia o dia todo. E aqui cabe uma breve reflexão
sobre alguns correntes de esquerda que teimam em ignorar a
problemática ambiental e se manter prisioneira de uma lógica
produtivista, no fundo, parte da lógica burguesa. É o
que se depreende do discurso do então Secretário do
Partido Comunista francês que declarou, em 1974, quando
candidato à Presidência da república que se
eleito todos os franceses teriam direito a um carro. Assim, ignorava
que se todos tivessem carro o que seria socializado seria o
congestionamento, como já provam nossas cidades com apenas 30%
das pessoas possuindo automóveis. Para não falar da
poluição que daí adviria. Além disso,
cabe indagar se o socialismo existiria para dar a todo mundo o que o
capitalismo só dá para alguns, o que implicaria dizer
que seria o consumo de bens o valor maior da vida e o socialismo só

estaria generalizando os valores da sociedade burguesa. Se esse
pensamento já não revelasse, por sis mesmo, a falta de
uma outra perspectiva para a vida, temos esses dados de que esse
modelo não pode materialmente ser estendido a toda a
humanidade. É de outros valores que carecemos!



Definitivamente a humanidade não
pode ter como padrão do que seja uma vida feliz o padrão
estadunidense. O planeta não suporta. O planeta vem sendo
posto em perigo por uma sociedade capitalista cuja injustiça
social se sustenta com base numa profunda injustiça ambiental.
Afinal, o que a máquina a vapor, base tecnológica das
relações sociais e de poder, com sua matriz energética
fossilista proporcionou com sua ampla aplicação foi que
a transformação da matéria pudesse se fazer em
qualquer lugar do mundo e transportada para os centros geográficos
do poder político mundial. Antes, a energia (capacidade de
realizar trabalho, lembremos sempre) para lavrar a terra dependia das
mulheres, dos homens e dos outros animais – os animais de
tração – assim como o próprio trabalho de
transporte dependia dos animais de carga. A memória dessa fase
ainda está viva na expressão HP (diz-se que um motor
tem 20 HPs, por exemplo). HP é s sigla que deriva do inglês

Horse Power, literalmente Poder do Cavalo ou cavalo-força.
Uma máquina é tanto mais potente quanto mais
equivalentes de cavalo tenham; 20 HP seria o equivalente à
força de 20 cavalos. Ora, os animais se alimentavam de
forragem (energia solar sob a forma de biomassa) exigindo áreas
próximas às lavouras onde fossem arar a terra
destinadas a produzir a forragem. Essas condições
implicavam, também, que as cidades não ficassem
distantes e não fossem muito grandes, caso contrário,
exigiam áreas mais extensas para produzir forragens para
alimentar os animais de carga. Hoje, é possível que uma
grande cidade, em qualquer lugar do mundo, seja abastecida com
matéria prima agrícola ou mineral de qualquer lugar do
mundo. O uso da energia advinda dos combustíveis fósseis
com a generalização da máquina a vapor,
inclusive nos transportes a grandes distâncias tanto terrestres

– ferrovias – como transcontinentais com a navegação
transoceânica, vai submeter o mundo a uma generalizada divisão
do trabalho impondo especializações aos lugares,
regiões e países e, assim, oferecendo as bases
materiais para a generalização do mundo das mercadorias
e aprofundando a tragédia social e ambiental do mundo. Toda a
tragédia social e ambiental da produção de soja
nos chapadões e planícies dos cerrados brasileiros, e
já adentrando a Amazônia, se destina, em grande parte, a
alimentar o gado europeu criado em estábulos. O enorme
desperdício de energia nesse transporte transcontinental e
transoceânico não é calculado nessa cadeia de
injustiça social e ambiental do agonegócio e dos
agronegociantes (para não falar do desperdício de água,
diminuição de fontes, de rios e das veredas, perda de
solos por erosão e de diversidade biológica por causa
das monoculturas). O retrato dessa tragédia podemos observar
quando vemos um caminhão frigorífico (mais energia
consumida para refrigerar) com placa de Chapecó, Santa
Catarina, atolado em Altamira, em plena Rodovia Transmazônica,
no Pará. O problema não está só no fato
de estar atolado, mas por ser um exemplo emblemático de
irracionalidade ambiental, com enorme desperdício de energia
para transportar frango de tão longe, como se o camponês
do Pará sequer soubesse criar galinha. É à custa
dessa irracionalidade ambiental que temos a formação de
grandes cartéis como a Sadia, a Perdigão, a Cargill, a
Syngenta, a Bunge entre tantas que conseguem, assim, vender frango e
soja em qualquer lugar do mundo. Todo esse modelo está fundado
num enorme consumo de energia, sobretudo de origem fóssil – o
Sol de tempos geológicos passados, como vimos – largamente
utilizado pelos diversos equipamentos de que se utiliza –

tratores, colheitadeiras, pivôs centrais, tudo movido a óleo.
É essa demanda de energia tão grande que impede a paz
nos lugares, comunidades, regiões e países que abrigam
grandes reservas desses combustíveis fósseis. Há
uma oculta, mas real, relação entre o efeito estufa e
as guerras pelo controle das fontes que o geram. A vida de diferentes
povos se tornou um verdadeiro inferno por causa do petróleo,
como se vê no Oriente Médio (Iraque,
Líbano-Palestina-Israel em destaque), na África (como o
povo Ogoni em conflito tenso com a holandesa Shell, na Nigéria),
na América Latina (na Amazônia equatoriana, peruana e
colombiana, na fronteira colombiana-venezuelana e na Bolívia –
gás).



Esse modelo, além de
esgotar recursos oferece uma qualidade de vida duvidosa para os ricos
e para os pobres. A obesidade já é um dos maiores
problemas de saúde no mundo. Nos EUA, 65% da população
adulta dos EUA é obesa o que gera 300 mil mortes por ano e um
custo anual de US$ 117 bilhões para o sistema de saúde.


Como
na ideologia hegemônica atual o consumo é tomado como
referência de qualidade de vida é importante se
considerar que, hoje, apenas 1,7 bilhão dos atuais 6,3 bilhões
de pessoas têm capacidade de consumir além das
necessidades básicas”. E mais grave ainda é

quando consideramos a qualidade do próprio consumo dos mais
ricos: 18 bilhões de dólares são gastos
anualmente com maquiagem, 15 bilhões com perfumes, 11 bilhões
com sorvetes na Europa, 14 bilhões com viagens de navios em
cruzeiros. Segundo ainda nos informa o jornalista Washington Novaes,
com base no Relatório da Worldwatch Institute, “bastariam
19 bilhões de dólares anuais para eliminar a fome no
mundo (mais de 800 milhões não têm o que comer),
US$ 10 bilhões/ano para prover todas as pessoas com água
de boa qualidade (1,1 bilhão de pessoas não têm),
US$ 1,3 bilhão/ano para imunizar todas as crianças
contra doenças transmissíveis, US$ 12 bilhões
para dar saúde reprodutiva a todas as mulheres. A ONU vem
repetindo isso há anos, em seus relatórios sobre o
desenvolvimento humano. Enfatizando que 2,8 bilhões de
pessoas, quase metade dos seres humanos, vivem abaixo da linha da
pobreza. Enquanto o crescimento econômico no mundo desde 1950
multiplicou por sete o PIB mundial, a disparidade de renda entre
ricos e pobres dobrou”.


O
Worldwatch Institute nos informa que o crescimento do consumo mundial
passou de US$ 4,8 trilhões em 1960 para US$ 20 trilhões
e está altamente concentrado – 60% só nos EUA, no
Canadá e na Europa, onde vivem menos de 12% da população.
Se acrescentarmos o Japão e outros países
industrializados, chega-se aos 80% da produção, do
consumo e da renda apontados pelos relatórios da ONU como
concentrados em nações com menos de 20% da população
mundial. Um mundo rigorosamente insustentável! Há uma
profunda imbricação entre os problemas relacionados com
o aquecimento global e a injustiça ambiental planetária.



Mais
abominável, ainda, é quando vemos governos e muitas
ONGs se associando para transformar essa tragédia
sócio-ambiental que advém desse mundo marcado pela
dominação – dos homens e da natureza – em
oportunidade de negócio. Enfim, ganhar dinheiro com a
tragédia. É o que se vê com o chamado Mecanismo
de Desenvolvimento Limpo – MDL – que permite que um país
continue a lançar na atmosfera seus gases de efeito estufa
desde que compre áreas nos países pobres onde plantem

árvores que capturariam gás carbônico da
atmosfera, limpando-a, ou simplesmente as mantenham com suas
florestas impedindo que o carbono seja lançado à
atmosfera. Além de ser cientificamente duvidoso o efeito desse
mecanismo de captura, ou seqüestro, de carbono da atmosfera,
transformam os países pobres em verdadeiras latas de lixo da
sujeira que compram o direito de continuar lançando, para
sustentar um desenvolvimento injusto e ambientalmente degradante que,
assim, se mostra um desenvolvimento sustentável. Além
disso, mais uma vez, a natureza é vista de um modo passivo,
isto é, como seqüestradora de carbono e não como
potencial produtivo. Segundo nos informa o físico Rogério
Cezar de Cerqueira Leite, professor emérito da Unicamp e
membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo, “a
densidade média da fitomassa na floresta amazônica é

de 740 toneladas por hectare na parte aérea, acrescidas de 255
toneladas de raízes”. Enfim, aproximadamente 1.000
toneladas de biomassa das quais cerca de 8% se reciclam todos os
anos, ou seja, aproximadamente 80 toneladas tudo isso usando energia
solar! Quanto de energia fóssil (fotossíntese de
milhões de anos atrás) seriam necessários para
produzir 80 toneladas de biomassa todos os anos? Todo esse potencial
produtivo sempre foi aproveitado pelos povos indígenas que, em
vez de desmatar para plantar, souberam criativamente, por meio de
suas diferentes culturas, aproveitar o trabalho da natureza por meio
da fotossíntese que, assim, permitia que eles ficassem
caçando, pescando, cuidando dos filhos, pintando. Foi o
encontro dessa lógica de viver com a floresta com a cultura
gaúcha que nasceu o projeto RECA, em Nova Califórnia,
na fronteira de Rondônia com o Acre. Ali a inteligência
do camponês sulista se aliou à inteligência das
tradições indígeno-caboclas para nos brindar com
um dos mais bem sucedidos projetos de desenvolvimento social e
ambientalmente sustentável da Amazônia. Para isso foi
necessário romper com muitos problemas, a começar com o
preconceito que, quase sempre, acompanha aqueles que se acham
querendo levar o progresso, o que os impede de aprender com os
indígenas e com os camponeses desses lugares, assim como da
dependência dos órgãos técnicos
governamentais, já que o projeto RECA foi, sobretudo uma
iniciativa de auto-organização camponesa e de alguns
religiosos ligados à Teologia da Libertação.
Felizmente, hoje, alguns técnicos e cientistas reconhecem as
vantagens para a humanidade de se estabelecer um diálogo entre
esses saberes e o saber científico. Só falta
transformar isso em política pública sistemática
e não supletiva e folclórica.



O efeito estufa bem pode ser
combatido a partir de iniciativas como essas, desde que saibamos
aliar essas iniciativas locais às lutas nacionais e globais,
já que o planeta é um só, e o maior responsável
pelos danos ecológicos globais é um sistema que se
globalizou globalizando a exploração da natureza.


BOX




































Produção,
Consumo e Balanço do Petróleo (em 1000 barris/dia)


2001







EEUU



Oriente
Médio




Europa




Produção



7.717


22.233



6.808



Consumo



19.633


4.306



16.093


Superávit-Déficit




11.916



17.927



9.285



Fonte:
Orlando Caputo – El Petróleo en cifras: Las causas
económicas de la Guerra de EEUU. “Statistical Review
of World Energy, BP 2002” e “La Inversión
Extranjera en América Latina y El Caribe, 2001”

CEPAL.






Carlos Walter Porto-Gonçalves é Doutor em Geografia
pela UFRJ. Professor do Programa de Pós-graduação
em Geografia da Universidade Federal Fluminense e Ex-Presidente da
Associação dos Geógrafos Brasileiros
(1998-2000). Foi ganhador da Medalha Chico Mendes em Ciência e
Tecnologia em 2004. Membro do Grupo de Trabalho Hegemonias e
Emancipações de Clacso. É autor de diversos
artigos e livros publicados em revistas científicas nacionais
e internacionais, sendo os mais recentes: – “Geo-grafías:
movimientos sociales, nuevas territorialidades y sustentablidad
”,
ed. Siglo XXI, México, 2001; “Geografando – nos
varadouros do mundo”, edições Ibama, Brasília,
2004; O “Desafio ambiental”, ed. Record, 2004; “A
Globalização da Natureza e a natureza da globalização”,
ed. Civilização Brasileira, 2006.