O Horto Florestal Barba Negra, em Barra do Ribeiro, Rio Grande do Sul, amanheceu sendo furiosamente destruído neste 8 de março. Terroristas da mais perigosa estirpe, ao que parece. Daqueles sem escrúpulos. Gente que ao longo das últimas décadas vem aniquilando o modo de vida de comunidades locais pelo Brasil, quilombolas, Tupinikins, Pataxós, Guaranis, pescadores e campesinas, sem o menor remorso.

Invadem terras, causando êxodo rural e a dispersão de muitas comunidades. Rios degradados. O uso intensivo de agrotóxicos contamina a água, o solo e as pessoas. Mentem deslavadamente. Definitivamente, são perigosos. Como se fosse pouco, ainda recebem gordos incentivos do governo, desde a época da ditadura militar (quando foram favorecidos para ocupação de terras indígenas quilombolas).

Em dezembro de 2005, foi aprovado empréstimo de R$ 297.209.000,00 pelo BNDES à Aracruz que, entre outros, servirá para modernização da sua fábrica de celulose no Rio Grande do Sul. O prazo de carência desses créditos do BNDES é de 21 meses, só a partir daí começam os pagamentos do empréstimo: os prazos das amortizações chegam a 84 meses. Tudo isso a juros de até incríveis 2% ao ano!

O BNDES também emprestou US$ 318 milhões para a construção da fábrica da Veracel (empresa da Aracruz Celulose e Stora Enso, sueco-filandesa – são concorrentes mas ao mesmo tempo sócias, alguém entende?), na Bahia. Além do Governo Federal, o Governo do Rio Grande do Sul já financiou mais de R$ 29 milhões, desde 2004, no agronegócio “florestal”. Com tantos aliados assim, fica fácil atingir o lucro líquido de R$ 1,2 bilhão (como em 2005).

Vejamos, agora, o contraste com outras notícias dessa semana: O endividamento e a descapitalização dos pequenos produtores rurais provocarão, pelo menos, oito atos públicos até o final do mês (março) no Rio Grande do Sul. Um levantamento feito pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura no Rio Grande do Sul (Fetag) aponta que mais de 100 mil agricultores não terão condições de pagar os financiamentos, o equivalente a 25% do segmento familiar no Estado.

Atualmente, as taxas de juros praticadas no Programa Nacional da Agricultura Familiar (Pronaf) variam até 8,75% ao ano. Ainda falando em números, em 2001 a agricultura familiar recebeu de investimentos públicos R$ 600 milhões para todo país, enquanto a Aracruz recebeu das mãos do BNDES R$ 666 milhões para sua terceira fábrica.

Talvez não esteja explícito a importância da agricultura familiar, propositalmente, final, não é do interesse do modelo de desenvolvimento excludente que está por detrás desta atividade. Mesmo assim, o ministro do Desenvolvimento Agrário, Miguel Rossetto, falou que a consciência democrática dos brasileiros foi ferida, e que “episódios deste tipo em nada contribuem para um debate sério e conseqüente a respeito do modelo de desenvolvimento rural que queremos para o nosso país”.

O que é democracia, afinal? Esses movimentos sociais sempre estiveram batendo na porta do Governo para conversar, sempre tentaram buscar acordos com as empresas. O que será que houve? Sejam ingênuos, mas não sejam marionetes.

O Governo do Estado do Rio Grande do Sul foi radical: suspendeu toda e qualquer relação institucional com a Via Campesina e com as instituições a ela vinculadas (como se tivesse tido alguma decente).

A Aracruz Celulose, e todas outras do setor, vêm sofrendo forte pressão popular, pelas razões descritas aqui e muitas outras, há muito tempo. Por isso, estava precisando de um “descuido”, como esse da Via Campesina, para desmantelar seus oponentes frente à opinião pública. Apoiada no sensacionalismo “a la reality show” da mídia, mais diversas notas pagas de capa e meia página de jornal, ela coseguiu. Pobre vítima.

Toda essa briga é pela produção de papel para exportação (e não esqueçam que não é apenas a Aracruz nesse jogo), principalmente para os EUA, que consomem 9 vezes mais papel que os brasileiros.

Então, perguntamos, porque não produzem direto lá, mesmo? Será pela mão-de-obra barata? Isenção de impostos e incentivos do Governo? Os passivos ambientais que ficarão para as próximas gerações? Ou será que é porque aqui o povo não se importa? Até pagamos por isso, não?

Este fato – que de isolado não tem nada – trouxe à tona, também, uma questão interessante: os políticos desse país nunca estiveram tão afinados, em esfera municipal, estadual e federal, todos empenhados em construir um país para inglês ver. Será que chegaram à conclusão de que a solução é comer papel?

– Cristiano Kern Hickel é do Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais