Mal o sol do dia 26 havia surgido no horizonte do Planalto Central, quando a maior parte dos cerca de 8 mil militantes e ativistas já estava de pé. Acomodados no Parque da Cidade, viajantes de diversas regiões do Brasil se preparavam para uma intensa jornada. “Levantei pouco antes das 6 horas para conseguir tomar banho antes da Assembléia”, conta a sul-matogrossense Cleide de Oliveira Rocha, da Pastoral da Juventude Rural (PJR), que caminhou por cerca de 20 minutos para chegar ao local do encontro.

Às 7h30, o ginásio Nilson Nelson no Eixo Monumental já estava com seu anel inferior tomado por um público diversificado: homens, mulheres, adultos, jovens, idosos, crianças e até bebês de colo.

O desafio que estava colocado para esses representantes de mais de 40 movimentos sociais brasileiros era um: pensar a construção de um poder popular. Os coordenadores da Assembléia convergem na interpretação de que a atual conjuntura social do país exige uma análise mais profunda das práticas políticas e, ao mesmo tempo, uma participação mais efetiva do povo nos processos decisórios. “Viemos aqui para refletirmos sobre o momento que estamos vivendo e para desenvolvermos ferramentas que nos ajudem a intervir na sociedade brasileira para transformar esse país”, resumiu João Pedro Stedile, da coordenação nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), em um dos discursos de início dos trabalhos.

O coordenador do MST enumerou alguns desafios para os militantes. “Precisamos estimular as lutas sociais, pois o povo não aprende apenas na escola ou na igreja, mas principalmente defendendo os seus direitos na rua. É o acúmulo dessas lutas que podem alterar a correlação de forças na sociedade a favor de um projeto popular”, afirmou Stedile. A Assembléia também será um espaço para formação de quadros e da discussão sobre estratégias para se disputar idéias na sociedade. Para o coordenador do MST, a consciência do povo precisa ser elevada. “Os 48% mais pobres da população acreditam em tudo em que assistem na TV ou escutam no rádio. Temos de mostrar que eles podem ter uma vida melhor”, disse Stedile.

Para ele, a Assembléia Popular será uma “grande relatoria do povo” e não se encerrará no evento que termina no dia 28. “O processo de construção de um projeto vai continuar, é um processo longo vinculado com a nossa base”, disse Stedile que também ressaltou a importância de se construir um movimento com a juventude das periferias.

Críticas

Em sua intervenção, o coordenador do MST fez uma breve análise da situação social brasileira e criticou os erros cometidos pela esquerda partidária e social. “Nossos erros foram os métodos: trocamos o trabalho de base pela articulação de cúpula, substituímos os militantes pelos profissionais pagos. O debate de idéias foi abandonado pelas imagens fáceis dos marqueteiros. Política não se faz com dinheiro, mas sim com vontade de lutar e de transformar”, avaliou Stedile.

O coordenador do MST também voltou a criticar as orientações econômicas do governo Lula. “Quando o presidente Lula diz que a política econômica é dele, não tem idéia da besteira que está falando. Essa política não é dele, mas sim do G-7 (grupo dos países mais ricos do mundo), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização Mundial do Comércio (OMC)”, disse. Segundo ele, um dos equívocos do governo petista foi priorizar os espaços do Parlamento e do Planalto, esquivando-se de dialogar com o povo. “Nenhuma sociedade mudou nada sem mobilização popular”, considerou acrescentando também que a gestão de Lula “entupiu” de dinheiro a mídia hegemônica, mas não apresentou nenhuma proposta para democratizar os meios de comunicação.

Eleições

No entanto, o coordenador do MST considerou que a direita sabe que a crise neoliberal é insustentável a médio e longo prazo e, por isso, quer colocar no Planalto alguém de sua confiança, que reprima os movimentos sociais. “Apesar do refluxo de massas do momento atual, a direita sabe que haverá um reacenso das organizações e Lula, em um segundo mandato, não t era coragem de nos reprimir”, opinou Stedile.

Para o dirigente sem-terra, o Brasil passa por uma crise social, política e ideológica que não será solucionada pela via eleitoral que, segundo ele, não altera a correlação de forças para aglutinar as massas.

Opinião semelhante à de João Pedro Stedile apresentou Sandra Quintela, socioeconomista do Instituto de Políticas Alternativas para o Cone (Pacs) e da Rede Jubileu, em sua intervenção. “A cada dois anos, digitamos um número, elegemos alguém e esperamos quem vai nos trair. Não é que as eleições não sejam importantes, mas precisamos fazer valer o princípio da República de que o poder emana do povo. Temos de tomar decisões”, avaliou Sandra.

A socioeconomista lembrou as conquistas recentes da trajetória da resistência popular no Brasil. Citou como exemplo os resultados do plebiscito popular da dívida externa e sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a entrega da base de Alcântara para os Estados Unidos, com a participação de 6 milhões e de 10 milhões de brasileiros, respectivamente. “Conseguimos que esses dois assuntos que estão fora dos meios de comunicação se tornassem públicos e hoje há um sentimento de repúdio na sociedade brasileira contra a Alca”, disse a socioeconomista, acrescentando que também foi derrubado o projeto de Alcântara freando um avanço militar do imperialismo no Brasil.

Esses dois plebiscitos foram citados como exemplos de exercício do poder popular. Algo que serve de referência sobretudo em um momento como o atual, de crise da democracia representativa. “Queremos avançar no processo de formação e educação política do povo. A Assembléia Popular faz parte de uma história de luta no processo de organização popular”, avaliou Sandra, acrescentando que serão construídos espaços para fazer trabalho de base nas comunidades, nos bairros, nas fábricas, nas escolas e nas cidades, disseminando o processo.

– Jorge Pereira Filho (BdF), Minga Informativa de Movimientos Sociales