Já é domingo e a noite corre calma no sul da ilha. Não há vento, nem estrelas, nem luz alguma. Até a coruja que dorme na beira do telhado está quieta. A impressão que tenho é de que o tempo parou. Lá longe, no horizonte escuro, se desenha um homem. Anda rápido e seguro. Vez ou outra se percebe a fumaça que expira nas baforadas do charuto imenso. Carrega um fuzil e tem uma boina na cabeça, de onde escapam tufos do cabelo escuro. O reconheço e abro a porta de par em par. Veio para uma conversa! Limpa as botas surradas no meu tapete verde e senta à entrada do alpendre, no chão. Sento ao seu lado e assim ficamos por minutos, em silêncio. O cúmplice silêncio de quem não precisa de palavras para se entender.

Depois, o guerrilheiro quer saber notícias das coisas da vida, do mundo. Conto a ele de mais um ano do governo Lula e ele aperta os olhinhos escuros, zangado. Falo da África e da sua permanente destruição. Ele amassa o charuto nos dedos e levanta, bufando. Conto do muro que o governo de Israel está fazendo para segregar os palestinos, e ele arrebenta a mão num dos pilares da área. Falo da cruzada dos Estados Unidos contra o que chamam de “terroristas”, da invasão do Iraque a partir de mentiras, e ele blasfema com gosto na sua língua argentina. “Aún no se foran al carajo? Cabrones!!!”. Falo de Cuba, do bloqueio que dura todos esses anos, e o rosto dele se enche de uma infinita ternura, como se a simples menção do nome da “isla amada” fosse suficiente para apascentar seu espírito. E assim vou, noite afora, descrevendo cada injustiça, cada dor humana, cada terror que se faz em todo o planeta, muitas vezes em nome da liberdade. E o garoto aventureiro das trilhas de “nuestra américa”, forjado homem na Sierra Maestra, vai ficando vermelho, os olhos lançando faíscas.

Seguro sua mão e peço que acalme a ira. Ele sai ríspido e fica andando pelo pátio como um leão ferido. Entro, cevo um mate e volto para o alpendre. A noite ainda vai longe. Ele se aproxima, doido para sorver o amargo com gosto de vida. Então eu sorrio e digo: “mas não é só isso, Teté! (ele ri ao lembrar do apelido carinhoso que a família lhe deu). Tem outras coisas”. Ele se aquieta e espera. Conto dos movimentos dos povos autóctones de toda a América Latina que estão se levantando. Falo dos quéchuas, dos aymaras, na Bolívia, a derrubar presidentes. “É Che, na Bolívia!!!” Digo dos indígenas equatorianos que também botaram para correr um presidente enganador. Dos zapatistas de Chiapas. Falo da lutas dos povos contra os Tratados de Livre Comércio impostos pelos EUA, contra a Alca, contra a OMC. Conto dos estudantes de Floripa, do Movimento Passe Livre. Falo dos garotos e garotas que estão acampados na UFSC em luta pela universidade pública. Digo da resistência cubana, das intifadas palestinas, dos camponeses colombianos, dos sem-terra brasileiros e paraguaios. Conto sobre os guatemaltecos, salvadorenhos, nicaragüenses que brigam contra a privatização da água. “A luta segue, comandante”.

Vou lá dentro e trago uma cópia do discurso do presidente venezuelano, Hugo Chàvez, pronunciado na última reunião da ONU. Ele lê, concentrado, os olhos escuros se apertando diante do português. Então começa a rir. Uma gargalhada gostosa, viva. “Este no es pelotudo, carajo. Tiene cojones!!!” Conto a ele sobre as mudanças que Chàvez vem fazendo. “Coisa pouca, Che. Mas, significativas para aquela gente da Venezuela”. Ele assente, pensativo, acariciando o fuzil.

Seguimos tomando mate, em silêncio. Então digo a ele que hoje, certamente, em cada canto do mundo, alguém estará falando seu nome, celebrando sua vida, sua luta, sua história. Falo que – apesar de já terem se passado 37 anos daquela manhã de 8 de outubro, em La Higuera, quando seu corpo tombou – seu nome segue vivo e iluminando outras gentes, outras lutas. “Não quero ser um mito”, diz, emburrado. “Não és”, digo eu. É só um homem, comandante, camarada. Um homem que nos ensina a cada dia que é preciso escolher um lado e se rebelar. Um cara que viveu o que disse, que não se escondeu atrás de palavras vazias e que nos inspira no exemplo e na prática. Dar a vida pelo irmão caído.

Quando a barra do dia foi surgindo, ele fez roncar uma última cuia e levantou. Um longo abraço encerrou a noite e ele partiu no passo de soldado, fuzil no ombro, rumo ao infinito. Lá longe, acenou. E eu fiquei, ainda sentindo seu cheiro, sem lágrimas, esperando o sol… Sei que virá. Ou ele, ou a tormenta!

– Elaine Tavares – jornalista