Amigos indagam como me sinto frente à atual crise política. Sabem
que dediquei os últimos trinta anos de minha vida à construção de um
novo projeto libertário que emancipasse milhões de brasileiros da
miséria e da exclusão. O que sinto? Uma “tristeza d’alma”, como
declarou Chico Buarque a 23 de agosto, em Passo Fundo, na Jornada
Brasileira de Literatura. Sensação corrosiva, ideais fraudados,
sonhos roubados, esse gosto amargo de frutos apodrecidos. Um pequeno
núcleo dirigente do PT conseguiu em poucos anos o que a direita não
obteve em décadas, nem nos anos sombrios da ditadura: desmoralizar a
esquerda.

Ainda assim, não me corrói o abatimento, nem a desesperança anula-me
a fome de justiça. A inquietação subjetiva aperta o coração, mas não
faz sangrá-lo. A vida me ensinou a ser espectador do próprio
sofrimento. Distanciamento psicológico aprendido ao assessorar José
Celso Martinez Corrêa na montagem de “O Rei da Vela”, de Oswald de
Andrade, em 1967. O ator encarna o personagem sem perder o domínio
sobre ele. Não sucumbe à criatura, como queria Mefistófeles.

Não diferia muito disso o que presenciei encarcerado entre presos
comuns no Carandiru. O torturado driblava a própria dor. Pauladas e
choques elétricos maceravam-lhe o corpo sem decompor o espírito.
Gritos lancinantes ressoavam das cordas vocais, à semelhança de
birras infantis desprovidas de lágrimas. Habituadas ao sofrimento, as
vítimas pareciam flutuar acima da carne ensangüentada. Muitos se
antecipavam ao martírio rasgando a pele com giletes e estiletes,
cobrindo-se de púrpura para o macabro rito sacrifical.

Os anos de luta clandestina, de cárcere, de convivência numa favela
capixaba, de atuação pastoral junto aos mais pobres, infundiram-me a
desilusão de esperar coincidir meu tempo pessoal com o tempo
histórico. Ao contrário do que apregoavam as quimeras esquerdistas,
convenci-me de que o socialismo ao alcance das mãos não passava de
miragem. O processo de humanização, o acesso a um patamar
civilizatório melhor, no qual toda pessoa sentir-se-á engrandecida de
dignidade, ainda levará longos anos, até que se supere o acúmulo de
bens e de poder como suprema ambição, valor prioritário dessa nossa
conflitiva convivência social. Na posse exacerbada busca-se, em vão,
a imortalidade, e os vinhos do Olimpo embriagam-nos dessa maldita
pulsão de querer figurar entre os deuses.

Nos porões da humanidade aprendi por que na floresta os tigres se
movem à noite. Não buscam a luz, nem se deixam inebriar pelos
primeiros raios do alvorecer. Nutrem-se do que vislumbram em plena
escuridão. Basta-lhes a magia das estrelas e a certeza de que a noite
é apenas um intervalo entre dois dias.

Não é o poder, a vitória, o lapidar cartesiano das ideologias que
movem meus passos. É o escândalo da miséria, a vergonha da pobreza, o
sofrimento de meus semelhantes, a razão dessa invencível teimosia em
juntar cacos, costurar retalhos, começar de novo, refazer o caminho,
ainda que a roda do moinho deixe a impressão de que nada sai do lugar,
tudo gira em torno de um mesmo ponto, nessa cíclica labuta de Sísifo
sobrecarregado de esperanças abortivas.

Venho de um povo peregrino. Venho da confiança de Noé na reinvenção
do humano, da persistência dos hebreus na travessia do deserto, do
desalento de Elias clamando pela morte, do aparente fracasso do
Nazareno dependurado na cruz. E trago em mim a marca indelével do
pecado original. Sei que novos projetos exibirão fraturas, sonhos
virarão pesadelos, o militante de hoje será o arrogante de amanhã. Se
os coxos não tropeçam é por prestarem maior atenção aos acidentes do
percurso.

Ainda assim, salva-me do ceticismo a fé no ser humano, os avanços
históricos, a proclamação dos direitos humanos, a indignação coletiva
frente à corrupção e à injustiça, o repúdio à guerra, à escravidão e
à tortura, a progressiva conquista de cidadania e democracia. Salva-
me a genética bíblica do grão de mostarda – a menor de todas as
sementes engendra uma árvore frondosa onde os pássaros se aninham.

– Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto autobiografia escolar”
(Ática), entre outros livros.