Através de pesquisa divulgada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o Brasil fica sabendo que quase um quarto da sua população já mudou de religião em algum momento da vida. Sob o título Novas Formas de Crer, a pesquisa foi encomendada pela CNBB ao Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS) e é a primeira de nível nacional que mapeia a troca de identidade religiosa e revela por que isso acontece. Foram apontados como principais motivos a discordância da doutrina e o convite de amigos e familiares, além da falta de apoio da instituição anterior em momentos difíceis. O "sentimento de bem-estar" em um determinado grupo religioso e a "aproximação com Deus" também aparecem como motivação para a mudança de pertença religiosa. Mesmo sendo as igrejas evangélicas pentecostais o que mais seguem recebendo maior número de adeptos no país, é constatado um movimento significativo de mudança de religião também em direção à Igreja Católica. Essa foi uma das grandes surpresas da pesquisa: a constatação de que a Igreja Católica também recebe novos fiéis nesse movimento de migração. Ou seja, há também mobilidade religiosa no Catolicismo, não apenas de êxodo, mas também de entrada. Por outro lado, um dos dados que mais preocuparam os bispos foi o índice dos que declararam não ter religião: 7,4%. Segundo o Censo de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), este percentual era, então, de 4,7% da população. O índice dos sem-religião, portanto, aumentou significativamente no espaço de apenas cinco anos. A Igreja Católica pretende, conforme entrevista dada pelos próprios bispos, debruçar-se com atenção sobre os dados da pesquisa para estudar e refletir sobre os elementos que esta apresenta. Inegavelmente aparecem aí diversos elementos de grande interpelação para o catolicismo, religião maciçamente majoritária do Brasil. Estamos, sem dúvida, em um momento no qual a opção da fé e da pertença religiosa já não é mais herdada pela etnia ou pela nacionalidade, nem tampouco pela família. Os fatores sociológicos não têm mais peso decisivo sobre a escolha do indivíduo em termos de sua filiação religiosa. Por outro lado, pesa, sim, a situação cultural vigente em nosso país neste início de milênio e de século, que se apresenta como algo paradoxal. Primeiramente, as grandes instituições religiosas encontram-se diante de uma nova situação, na qual não são mais hegemônicas nem ocupam lugar privilegiado dentro do campo religioso. Em segundo lugar, está o surgimento de novas propostas religiosas e devoções. O processo de secularização que a modernidade trouxe consigo não pode ser identificado, portanto, apenas como "perda" ou "banimento" da religião do horizonte humano. Trata-se, sim, de uma "recomposição" em novas chaves e novas bases do sentimento religioso e das crenças, que têm lugar em uma sociedade motivada pela incapacidade da mesma em responder aos apelos nela suscitados. Estamos diante, portanto, daquilo que a pesquisa do CERIS intitula tão apropriadamente "novas formas de crer". Nessa nova formatação da crença e da fé, percebe-se maior mobilidade e maior trânsito das pessoas de uma religião para outra. Muitas vezes desorientados e perdidos em meio a um mar de propostas religiosas, o homem e a mulher do século XXI buscam ardentemente uma experiência transcendente que dê sentido a suas vidas. E não hesitam em transitar entre diferentes instituições até encontrarem o que procuram. Não hesitam inclusive em enfrentar o vazio e o deserto de não aderir a nenhuma religião em seu processo de busca da verdade e do sentido para a vida. No entanto, em meio a todo esse complexo cenário, importa reconhecer que não cessam de buscar. E nessa busca, encontram novas formas de crer. Novas formas de viver e expressar aquilo que desde os primórdios da história da humanidade está presente, fazendo do ser humano o único ser vivo que não se conforma com os limites do tangível e deseja mais além de onde sua vista alcança e sua vida biológica dura. Nessa busca, enquanto inventa novas formas de crer, o ser humano continua vivendo a bela e verdadeira exclamação do grande Agostinho de Hipona: "Fizeste-nos para vós, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não descansar em Ti." – Maria Clara Lucchetti Bingemer, teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio wwwusers.rdc.puc-rio.br/agape