Lançado durante o V Fórum Social Mundial, no final de janeiro, o novo livro do renomado filósofo Emir Sader, intitulado “Perspectivas”, é uma rica contribuição ao debate sobre as alternativas ao neoliberalismo [1]. Ele procura sintetizar e dar coesão às propostas surgidas na crescente resistência à barbárie neoliberal, tendo como fonte privilegiada os aportes dos fóruns sociais mundiais sob o lema de que “um outro mundo é possível”. O livro é um esforço dialético de fusão das experiências concretas das lutas com a elaboração intelectual. “Estas, sem aquela, se resumem ao acúmulo de circunstâncias, que se esgotam em si mesmas. A prática teórica, sem desembocar em experiências concretas, se esgota na impotência”, explica o autor.

Após analisar a origem, o ápice de hegemonia e o declínio das teses neoliberais, Sader detalha a trajetória dos movimentos de contestação a esse projeto destrutivo e regressivo – desde a eclosão da guerrilha em Chiapas, em janeiro de 1994, até a consolidação do FSM. Como ressalta, porém, “o esgotamento – teórico e prático – do neoliberalismo não representa a sua morte. Os mecanismos de mercado que ele multiplicou seguem tão ou mais fortes do que antes, condicionando e cooptando governos, partidos, forças sociais e intelectuais”. Para ele, ainda não está nítido qual tipo de sociedade sucederá esse modelo tão perverso de mercantilização do mundo e da vida. A alternativa ainda seria uma questão em aberto!

Exposto o dilema, o autor enfrenta corajosamente várias polêmicas que atormentam as esquerdas sociais e partidárias. Aborda, por exemplo, a relação entre a questão nacional e a perspectiva internacionalista. Para ele, a luta por justiça e democracia hoje requer maior integração dos povos – daí a importância estratégica do Mercosul. “Numa economia mais internacionalizada do que antes, com os mecanismos de dependência externa mais fortes, dificilmente seria possível sair da ‘financeirização’ de sua economia e construir um modelo pós-neoliberal, sem mecanismos consolidados de integração regional. Assim, devem correr juntos um refortalecimento dos Estados nacionais e a construção de processos de integração supranacional”.

Isso não significa sua adesão às teses tão influentes no “altermundismo” de negação do papel do Estado e da questão nacional. Para ele, “a construção de uma força internacional alternativa continua a depender de transformações dos Estados nacionais e, a partir destes, junto às mobilizações populares, dos processos de integração regionais e dos organismos internacionais. A não ser que se aceite o mito do ‘fim do Estado’… O espaço em que os movimentos sociais conseguem acumular forças, articular-se, propor alternativas, é o espaço nacional… A construção de uma força alternativa internacional, assim como não pode dispensar as forças políticas – como os partidos –, tampouco pode prescindir dos governos e dos Estados”.

No que se refere à candente questão da alternativa ao neoliberalismo, Emir Sader também entra de chofre na polêmica. Após apontar os vários fatores que confirmariam a defensiva estratégica do proletariado, ele conclui que o socialismo infelizmente não está na ordem do dia. “A situação é paradoxal: diante da maior crise social que o capitalismo viveu desde a década de 1930, nunca a esquerda foi tão fraca… Tanto os sindicatos quanto os partidos de esquerda ou se descaracterizaram ou se enfraqueceram substancialmente. Assim, existe um abismo entre o que o marxismo chama de ‘condições objetivos’ e ‘subjetivas’”. Daí sugerir a possibilidade da existência de uma fase de transição, batizada por ele de “pós-neoliberalismo”.

“Este seria um período de transição, ainda que possa ter uma duração relativamente longa. Nesse período se desenvolveriam novas formas de socialização na reorganização da economia, de cooperação social, na construção de múltiplas formas de afirmação das identidades culturais, na multiplicação das formas de integração e de solidariedade internacionais. Este período se daria como transição entre o capitalismo, na sua forma neoliberal, e as sociedades pós-capitalistas… Ao longo desse período se construiriam as novas formas de subjetividade, os novos sujeitos sociais, que dirigiriam essas novas sociedades pós-capitalistas. Formas de relações mercantis seriam combinadas com formas socializadas de relações econômicas, sociais e culturais, gerando assim um período contraditório, de disputa entre as forças favoráveis à restauração da hegemonia capitalista e aquelas que lutam por sociedades socialistas”.

Tendo como base essa idéia-central de transição, o livro sistematiza e dá corpo às várias alternativas ao modelo neoliberal – no terreno econômico, político, social e ideológico. Nesse sentido, ele elabora uma proposta de plataforma ampla e diversificada que serve de subsídio para as esquerdas sociais e partidárias. Entre outras medidas, ele propõe o cancelamento da dívida dos países da periferia do capitalismo – “que representa atualmente uma despesa entre 200 a 250 bilhões de dólares, isto é, duas ou três vezes a quantia necessária para satisfação das necessidades humanas fundamentais” –; aplicação de taxas sobre transações financeiras, grandes fortunas e gastos militares; instituição de regras de “comércio justo” entre as nações; e adoção de medidas de controle do fluxo de entrada e saída dos capitais especulativos. Também defende medidas políticas para “democratizar a democracia” e de combate à desigualdade social.

A plataforma exposta no livro possui forte sentido antiimperialista. “Um ‘outro mundo possível’ implica em transformações das estruturas de poder no plano internacional, impossíveis com o poder hegemônico norte-americano”, garante. Nesse ponto, o autor fustiga Antonio Negri e Michael Hardt que no badalado livro Império decretaram: “O imperialismo acabou” [2]. Para Sader, essa tese não se mantém à luz da realidade, que hoje revela a brutal agressividade do governo dos EUA e sua promíscua relação com as corporações petrolíferas, de armamentos e outras. “As guerras dos EUA contra o Afeganistão e o Iraque caracterizaram uma nova modalidade de imperialismo, que passa a se valer, de novo, precisamente da ocupação territorial… O caráter imperial dos EUA é agora reivindicado pelo governo norte-americano”.

Ele também polemiza com as concepções espontaneístas que subestimam a luta pelo poder político, os partidos e o Estado – e que, em muitos casos, coincidem na negação do próprio imperialismo. Para ele, a visão que norteia boa parte das organizações não-governamentais (ONGs) e mesmo alguns importantes movimentos rebeldes, como o zapatista, não dá conta do que há de novo na luta contra o neoliberalismo e resvala na impotência. A sua defesa idílica da “sociedade civil” esconde as contradições de classes que permeiam o sistema capitalista. “Sua linha se orienta na direção do desencanto com os partidos, com as experiências políticas vividas até aqui pela esquerda, mas não se debruça sobre os processos históricos concretos, não analisa como se dá o processo de lutas sociais e políticas”, crítica Sader.

O livro “Perspectivas” apresenta um rico diagnóstico do neoliberalismo, elenca várias propostas para uma plataforma alternativa e encara com vigor e generosidade as polêmicas presentes nas esquerdas mundiais – além de realizar um rico relato do recente movimento mundial de contestação à globalização neoliberal. Por sua abrangência, ele apresenta lacunas e pontos de exigem maior aprofundamento e também aspectos controvertidos. É, sem dúvida, uma importante contribuição ao debate da atualidade.

* Altamiro Borges é jornalista, membro do Comitê Central do PCdoB, editor da revista Debate Sindical e autor do livro “Venezuela: originalidade e ousadia” (Editora Anita Garibaldi, 2005).

NOTAS

1- Emir Sader. “Perspectivas”. Editora Record, Rio de Janeiro, 2005.

2- Antonio Negri e Michael Hardt. “Império”. Editora Record, Rio de Janeiro, 2001.