A história chilena – esse formidável laboratório de experiências políticas na América Latina – está povoada de grandes personagens, porque grandes gestas produzem e, ao mesmo tempo, são produzidas por grandes personagens. Luis Emilio Recabarren, Salvador Allende, Miguel Enriquez são apenas duas das mais conotadas expressões dessa história, que sempre produziu os fenômenos históricos em sua máxima radicalidade – do movimento mineiro à Frente Popular, dos partidos comunista e socialista ao governo da Unidade Popular, do MIR e da resistência à ditadura militar de Pinochet.

Gladys Marin pertence a essa galeria de grandes personagens. Ela conquistou esse lugar com sua vida, com sua luta, com seu caráter, com seu olhar para o futuro, com os pés ancorados em um passado feito de coragem e de retidão.

Quem pôde presenciar seu discursos na frente do Palácio da Moneda, na ocasião do 30. aniversário do golpe militar, ela carregava consigo todas ao honras, todas as glórias, todas as lutas do povo chileno ao longo de tantas décadas. Sua voz ressoava na praça como rajadas de fogo contra a direita, contra o imperialismo, contra o capitalismo, defendendo os explorados, os oprimidos, os humilhados, os discriminados, que encontram nas suas palavras, na sua voz, a garanta de que a luta do povo chileno segue viva.

Pudemos acompanha-la ao novo batismo do Estádio Chile, onde a ditadura assassinou a Victor Jara, dando o nome dele ao Estádio e constatar – em um show de Silvio Rodriguez -, a imensa simpatia que Gladys despertava naqueles milhares de jovens da nova geração da esquerda chilena.

Poucos dias depois, ainda no mesmo mês de setembro do ano 2003, descobriu-se um câncer devastador em Gladys. Operada na Suécia, ela recebeu todos os tratamentos possíveis em Cuba – onde recebeu as maiores homenagens do governo cubano -, mas foi debilitando-se e agora recebemos, com lágrimas nos olhos, a triste notícia da sua morte.

Mulheres como Gladys, com sua fisionomia com fortes marcas de índia chilena, com sua pele morena, com seu olhar ao mesmo tempo sereno e agressivo, resgatam o melhor que o povo chileno e latino-americano produziu e continua produzindo. Mulher, comunista, chilena, combativa, dirigente, sua vida e sua morte são fortes apelos a todos os que mantêm a sensibilidade e a esperança em um futuro melhor para os nossos povos, para que convoquem dentro de si novas energias – com humildade, mas com força, com espírito autocrítico, mas sem resignação, com tolerância, mas com firmeza – para seguir a luta pela construção de um mundo como aquele pelo qual Gladys deu o melhor de se mesma – um mundo solidário e humano: um mundo socialista.