Seguramente a violência no Brasil possui muitas causas já
analisadas com minúcia por muitos. A rigor nem deveríamos dizer
que aqui ocorre violência. A violência é estrutural na formação
de nossa sociedade. Fomos construidos sobre um fundamento de
violência que foi o processo de colonização. O cimento foi feito
de violência: as vidas dos escravos, transformadas em carvão para
o processo produtivo, como costumava dizer o indignado Darcy
Ribeiro. Violenta é a forma como o povo comumente vem tratado
sempre considerado jeca-tatu, joão-ninguém, zé-povinho cuja
relação primeira para com ele é o grito ou o cassetete.

Mas há uma violência que nasce de um sentimento: a revolta face à
contradição existente entre as grandes maorias que vivem numa
miséria desoladora e as minorias que desfrutam de uma opulência
indecente. Quem circula pelas imensas periferias e favelas de
nossas cidades e depois chega ao centro ou aos bairros ditos
nobres constata esta dilaceração, anterior a qualquer juizo ético
ou político.

A primeira reação é: como podem estas populações viverem, por toda
uma vida, em condições tão infra-humanas? Elas merecem? Como podem
crianças andarem por ai, semi-nuas, barrigudas, jovens com seus
15-17 anos empinando pipas ao céu, homens de meia idade sentados
nas pracinhas sem fazer absolutamente nada porque estão há muito
tempo desempregados? O que mais dói é ver meninas de 12 e 13 anos
abordando passantes: “tio, tio, vamos fazer amor? É só por um
realŠeu sei fazer tudo o que o homem gosta”.

E por outro lado, como podem viver estes de boa vida, bem
alimentados, bem morados, bem estudados e bem munidos de contas
nos bancos, como podem viver humana e eticamente no meio de tanta
contradição? Neste momento intuimos, entre raiva e desalento, que
a desigualdade é pior que a pobreza. Ela é simplesmente
inaceitável, por demasiadamente irracional. Se estas classes
aquinhoadas e o Estado atrás do qual elas se escondem, ao invés de
gastarem mihões cada ano em segurança policial, em muros, em
circuitos internos de tv, em seguranças privados, em carros
blindados, os gastassem em projetos de educação, professinalização,
criação de centros comunitários, cooperativas de construção de
casas, lugares de lazer e arte, teríamos equacionado em grande
parte o problema social. E todos gozaríamos de paz, poderíamos
andar à noite por ai, sem medo de sermos assaltados e até mortos.

Pensemos em termos globais. Se as potências militaristas à frente
delas os EUA deixassem de gastar anualmente bilhões e bilhões de
dólares na fabricação de armas de morte resolvessem ter um mínimo
de sentimento e ser um pouco mais racionais e investissem nos
seres humanos então poderiam garantir comida, saúde, casa e
ocupação a cada habitante deste planeta.

Teríamos criado as pre-condições para uma paz duradoura entre
todos os povos.

Ocorre que mais e mais pessoas das favelas despertam e não aceitam
mais essa contradição. Passam à violência como forma de vingança
e de solução individual para o problema social. Se o governo Lula
apenas estabilizar a macroeconomia neoliberal e deixar de fazer
transformações sociais para diminuir as desigualdades, haverá mais
violência ainda. Ao invés da democracia sem fim teremos a
violência sem fim. Ela nos conduz à barbárie que não poupará
nossos filhos e netos.

* Leonardo Boff. Teólogo.