Era pontual. Todas as manhãs, soadas dez horas, quando a freguesia
já refluíra, pois notícias é bom saboreá-las o mais cedo possível, o
que explica muitos se dedicarem à leitura dos jornais tão logo
saltam da cama, antes mesmo de lavar os dentes e tomar café, mas não
era o caso dele, preferia a hora calma, depois que o enxame ávido de
leitores já havia consumido, na banca de jornais, o mel do frescor
do noticiário impresso.

Postava-se ali bem do lado, de modo a não atrapalhar os movimentos
de algum eventual freguês daquela hora morta da manhã, cuidando para
que seu corpo não tapasse a capa das revistas expostas atrás, e
entabulava meia-hora de papo com o jornaleiro, um homem de bigodes
finos que demonstrava prazer em receber seu Veridiano, o melhor
cliente. Veridiano só tardava na hora aos domingos, quando os
leitores acordam mais tarde, prolongando o alvoroço em torno da
banca até meio-dia. Aos domingos, Veridiano permanecia colado à
banca na meia-hora que precede o toque monocórdio do badalo do sino
da igreja, marcando uma hora.

Então, como vão as coisas, indagava Veridiano todos os dias, a mesma
pergunta com igual tom de voz. O jornaleiro esfregava os dedos no
bigodinho fino, como se quisesse ajustá-lo sob as narinas, e sentado
no tamborete, a descansar da labuta matutina, comentava o pouco que
sabia, pois seja por preguiça mental, seja por falta de tempo, só
tomava ciência das notícias de primeira página.

É, parece que o governo não está conseguindo retomar o crescimento,
suspirava o vendedor, com a mesma calma com que comentava que um
carro-bomba matara mais de uma centena de pessoas em Bagdá. E o
crime da Lagoinha?, provocava Veridiano, emendando a conversa de
hoje com a de ontem, quando a manchete havia trazido a notícia de
que um casal fora assassinado no bairro da Lagoinha, sem que nenhuma
pista do criminoso tivesse sido encontrada. Parece que só o cachorro
do casal presenciou o crime, dizia o jornaleiro, enquanto erguia-se
para ajeitar uma revista tombada na prateleira. Mas cachorro não
fala, só late, arrematava Veridiano, repondo o caso em sua devida e
misteriosa estaca zero. O Cruzeiro enfrenta amanhã o Flamengo,
informava o vendedor. Vai ser um jogão, suspitava Veridiano, naquela
conversa descosturada que todos sabem existir entre o sapateiro e
quem espera o sapato, o passageiro e o taxista, o paciente e a
secretária do consultório, o biriteiro e o dono do boteco. Conversa
fiada que nada acrescenta. É um jogar palavras ao vento, sem atar
laços afetivos nem se intrometer na vida do outro, onde as mentiras
são gentilmente aceitas, os exageros permitidos, sem que haja
convite para retornar no dia seguinte ou marcar novo encontro.

Enquanto ouvia o jornaleiro comentar o noticiário das primeiras
páginas, Veridiano recolhia das pilhas de jornais os de sempre:
Estado de Minas, Correio Braziliense, O Globo, Jornal do Brasil,
Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo. Antes de acomodá-los na
sacola de pano, fitava detidamente as fotos de capa, comentava uma
ou outra com o jornaleiro, como essa casa ficou destruída! É,
retrucava o vendedor, a chuva fez muitos estragos ontem na capital
paulista, e entre uma observação e outra Veridiano recolhia a sua
encomenda diária, pagava e, com um até amanhã lacônico, afastava-se,
tomando o rumo da praça da matriz.

Havia ali, ao lado do coreto, meia dúzia de tabuleiros de damas,
quadriculados em mesas fixas, em torno das quais aposentados se
ocupavam para não ver o tempo passar. O grupo de Veridiano
habituara-se a jogar entre onze e uma hora, enquanto se abria o
apetite para o almoço que, em casa, suas mulheres preparavam.

Então, trouxe os jornais, perguntavam os amigos como se dissessem a
Veridiano bom-dia, seja bem-vindo. Todos aqui, bem lidos, respondia
ele, enquanto distribuía às mesas os periódicos e adiantava, em
breves comentários, uma ou outra notícia de destaque. Tudo que tem
aí já aconteceu, brincava ele.

Veridiano era tido, ali na praça, como o mais lido e bem informado
da turma. Os anos passavam sem abalar a sua fama. Nenhum de seus
parceiros de jogo, nem o jornaleiro, jamais desconfiou de que ele
era, de fato, analfabeto.

* Frei Betto é escritor, autor de “Alfabetto – Autobiografia
Escolar” (Ática), entre outros livros.