“Tirem as mãos, o Brasil é nosso chão!”. Esta foi a palavra de ordem
gritada em centenas de cidades do Brasil neste dia 7 de setembro.
Caminhadas, celebrações, gestos simbólicos, blocos em desfiles
oficiais e tantas outras atividades envolveram mais de 2 milhões de
pessoas no processo do 9º Grito dos Excluídos no Brasil.

Em Aparecida/SP, cidade simbólica do Grito, o evento foi realizado
juntamente com a 16ª Romaria dos Trabalhadores. Teve início com a
procissão que saiu do Porto Itaguassu, rio onde foi encontrada a
imagem de N.Sra. Aparecida. Em frente ao Santuário, mais de 120 mil
pessoas cantavam e gritavam palavras de ordem em defesa da Soberania,
por trabalho, pão, moradia etc.

Durante toda a manhã, houve a vacinação contra o vírus da ALCA. A
população era convocada a se proteger do vírus assinando com uma
caneta (em forma de seringa), o abaixo assinado que exige do governo
federal a realização de um Plebiscito Oficial sobre a ALCA. Em 2002,
a Campanha Jubileu, junto com o Grito realizou um Plebiscito Popular
onde mais de 10 milhões de pessoas disseram não a implantação da
ALCA.

Além de cantos e palavras de ordem, muito gestos simbólicos animaram
o grito de Aparecida. Houve até a apresentação de um rapel: duas
jovens desceram os muros da Basílica estendendo enormes faixas que
diziam: “Mãe Maria, lutamos por trabalho e justiça todo dia” e
“Vacine-se contra a ALCA”.

Um momento marcante foi quando, o famoso personagem do “tio san”
tentava roubar a Amazônia de um mapa gigante do Brasil, instalado de
fronte a Basílica. Em baixo, lideranças das pastorais e movimentos
sociais, num gesto de unidade e defesa da nossa soberania, resgataram
a região Amazônica puxando-a de volta.

Diversas lideranças acompanharam animadas as atividades do Grito. O
Bispo emérito de Volta Redonda/RJ, Dom Valdir Calheiros, 82 anos e
que sempre participa do Grito em Aparecida afirmou que “Deus sempre
escutou o grito dos pobres”. Sobre o fato de o Grito ter se espalhado
por 22 países das Américas, D. Callheiros disse que “o problema da
injustiça e da miséria esta presente em toda a América Latina e
quanto mais nos unimos para o mesmo grito, mais alto ele se faz
ouvir”. D. Calheiros disse ainda que “para a Igreja não há outra
opção, senão a opção pelos pobres”.

Para o Pe. Alfredo Gonçalves, 51, assessor das Pastorais sociais da
CNBB, é fundamental que as pastorais estejam ao lado dos excluídos do
sistema imperialista que privilegia os lucros em detrimento da pessoa
humana. Também destacou a importância da integração latino-americana
na campanha do Grito, sobretudo na luta contra a implantação da ALCA.

Luiz Marinho, 44, presidente da CUT – Central Única dos
Trabalhadores, entidade que compõe a coordenação do grito, disse que
“estamos aqui para renovar a nossa esperança, pois, enquanto existir
excluído no nosso país, a CUT estará presente nas atividades”. Disse
que vê com muito entusiasmo o crescimento do Grito para outros
países. “Iniciativas como estas como as do Fórum Social Mundia,l
representam a unidade internacional na luta por dias melhores.
Afirmou ainda que ” Grito no Brasil sinaliza que a unidade dos
diversos movimentos sociais, populares, sindicais e político vem
permitindo a construção de um rumo de crescimento do país pautado na
inclusão social. Este é um momento de muita esperança e se
continuarmos firmes e organizados estaremos construindo o Brasil dos
nossos sonhos.”

João Pedro Stédile, 48, coordenador nacional do MST, que participou
do ato também assinando o pedido de Plebiscito oficial sobre a ALCA,
juntamente com representantes de negros, migrantes e desempregados,
lembrou que o povo enfrenta ainda muitas dificuldades e, sobretudo,
no momento atual, a falta de trabalho. ” Não temos dúvidas de que
para haver trabalho para todos é preciso mudar a política econômica.
É preciso que o governo recupere a soberania sobre as políticas
econômicas. Por isso não podemos estar submissos aos acordos do FMI
para que ele fique dizendo se pode ou não gastar com trabalho e
medidas sociais. Da mesma forma não podemos nos submeter a ALCA. Eles
são os responsáveis pela continuidade da política econômica que está
aí. O povo brasileiro votou no Lula para mudar a política econômica.
O grito do povo deste ano é por trabalho e é dever do governo usar a
política econômica para fazer investimentos que criem trabalho.”

Stédile destacou ainda a importância do Grito dos Excluídos porque
ele é “um esforço unitário dos movimentos e pastorais sociais para
conscientizar o nosso povo. É uma forma de fazer pedagogia de massas.
A metodologia que o Grito dos Excluídos usou ao longo destes anos
através das místicas, através de eventos e simbologias, tem
colaborado para que o povo de conscientize de seus problemas e busque
as saídas. O MST está junto nesta Campanha porque ela tem se revelado
uma grande escola de formação política dos pobres do Brasil e da
América Latina.”

O artista plástico e muralista Pavel Eguez, 40 anos, criador da
imagem da Campanha do Grito dos Excluídos nas Américas, também marcou
presença em Aparecida. Eguez, que é atualmente adido cultural da
embaixada do Equador no Brasil, ficou emocionado com a grande festa
popular que presenciou neste dia. “O grito tem proporcionado que as
pessoas compartilhem da proposta desta campanha que é de unir os
diversos setores excluídos na luta por trabalho, justiça e vida em
uma festa alegre e popular.”

Para Doris Trujillo, 27 da Federação de Seguro Campesino de Equador,
é muito bonito ver uma festa combinada com muita luta, esperanças e
gritos. “É a primeira vez que sinto uma expressão viva do que é o
Grito dos Excluídos. Homens, mulheres e crianças trazem suas vozes a
esta cerimônia de fé, mas que também é uma proposta política de vida,
uma proposta de esperança para dias melhores.”

O Grito, que aconteceu em mais de 1500 localidades, mobilizou também
as principais capitais do país como Vitória – 12 mil pessoas, Recife
– 15 mil, Salvador – 30 mil, Belém – 5 mil, São Paulo/capital e
Cuiabá -3 mil, Curitiba – 2 mil, entre outras como Porto Alegre,
Florianópolis, Belo Horizonte, Manaus etc. Em Fortaleza, 15 mil
pessoas tomaram as ruas da capital para protestar contra a ALCA e
lançar a campanha de boicote aos produtos estadunidenses. Para os
organizadores, o boicote é uma reação à política imperialista e
bélica do presidente dos Estados Unidos da América, George W. Bush.

As manifestações continuam durante esta semana, somando-se as
mobilizações continentais contra a OMC, ALCA e FMI. Seu momento forte
será no dia 13, onde milhões de pessoas em todos os países sairão às
ruas.

* Luiz Bassegio e Luciane Udovic
Secretaria do Grito dos Excluídos Continental
– Por trabalho, Justiça e Vida –

DEJA TU COMENTARIO

Por favor ingrese su comentario!
Por favor ingrese su nombre aquí