Com o fragor das batalhas em Bagdá, assistimos a uma outra luta,
agora na América do Norte. Refiro-me à campanha oficial daquele
país contra a imprensa livre. Vejamos o exemplo de Peter Arnett,
profissional que teve ilusões de dizer o que pensava sobre os
erros estratégicos americanos.

Demitido, lemos as desculpas melancólicas que ele mesmo
apresentou ao complexo político e militar que orienta sua terra.
Com esse fato, um limite espiritual foi superado. Os jornalistas
autênticos que operam nos EUA sabem que o liberalismo foi
suspenso. Calar ou exercer a propaganda governamental é a opção
permitida à imprensa. Algumas resistências à censura foram
esboçadas e a tentativa de Arnett é prova disso. Mas a profissão
jornalística recebeu um ferimento grave.

Janio de Freitas, na Folha, em 1º/04/ 03, apresentou um
requisitório contra o silêncio de pessoas e instituições na
guerra do Iraque. O mutismo define as tiranias. A primeira
coisa que buscam os autocratas é a cumplicidade das vítimas.
Elias Canetti lembra o imperador Domiciano, cujo desejo era
aterrorizar os líderes de Roma. Ele os convidou para uma
refeição e, nela, os alimentos servidos eram idênticos aos
ofertados pelas almas dos mortos. Enquanto os “convivas”
guardaram um silêncio de pavor, Domiciano recordou falecimentos e
massacres. Alternaram-se, nos convidados, o medo diante da morte
e a esperança de sobrevida. Os líderes deixaram-se dominar no
pêndulo daquelas emoções.

Comentário de Canetti: “O terror incessante no qual Domiciano
manteve seus hóspedes fez com que eles emudecessem. Somente ele
falava, e falava de mortes e massacres”. Mas, na vida pública, o
silêncio é menos traumático do que a fala obrigatória das
vítimas.

Na Santa Inquisição, silentes quando “apenas” os cristãos novos
eram torturados e postos em fogueiras, os mudos da época sentiam
chamas ardentes se aproximarem de seu corpo. Quando pegos nas
mesmas armadilhas sobre as quais se calaram, foram coagidos a
confessar muitas faltas, na maioria inexistentes. A igreja tem
essa mancha no seu pretérito.

Também nos modernos movimentos políticos deu-se a passagem do
silêncio às palavras enunciadas para confirmar os poderosos.
Caso típico são os julgamentos de Moscou sob Stálin. Os fiéis ao
programa revolucionário silenciaram quando os dirigentes
distorceram teses e ordenaram perseguições aos inimigos do
partido. Os militantes calaram porque o mesmo partido era a sua
vida. Eles e a máquina política seriam uma só carne. Os
emudecidos nos primeiros tempos tirânicos tornaram-se réus,
confessaram faltas inexistentes, destruíram sua personalidade em
favor do líder. Espantosa e triste comunhão entre os “culpados”
de Moscou e os seus algozes: Claude Lefort analisa o fenômeno em
livro não traduzido para a nossa língua, “Un Homme en Trop”.

Mas não apenas a URSS impôs o silêncio e a fala forçada. Na
França, na Inglaterra, nos EUA ocorreram estupros de almas,
confissões e pedidos de perdão por supostos “erros” cometidos.
Na Argélia, os franceses sabiam que seu governo torturava os
árabes. Poucos tiveram a coragem de Sartre para denunciar a
“superior civilização” francesa. Muitos acadêmicos e jornalistas
assumiram um tom contrito, desculpando-se não diante dos
torturados, mas dos torturadores. Eles tentaram apagar até a
simples notícia das atrocidades.

No macarthismo, espetáculo similar surgiu diante do mundo.

Essas práticas pavimentaram as políticas do Ocidente, onde a
regra é o silêncio, o medo, o aviltamento da consciência. As
exceções brilham. O caso de Peter Arnett é notável. Ele ousou
dizer coisas escondidas a milhões de americanos. Despedido, as
suas desculpas foram lamentáveis. Mudando nomes e lugares, temos
nesse caso a realidade dos processos moscovitas.

Neles, o réu tinha no partido a sua razão de ser, e devia
confessar traições imaginárias para garantir o “seu” Estado.
Arnett e a América deveriam ser um bloco. Quebrado o monolito,
restou ao jornalista a humilhação de indicar o seu pensamento
como servo da censura, o que é proibido pela Constituição
americana.

Na URSS de ontem e nos EUA de agora, a imprensa sofreu e sofre
com as tenazes da razão de Estado. Arnett testemunha a violência
contra a liberdade de pensamento. Depois desse fato, e das
atrocidades cometidas pelos governos, com o silêncio acovardado
dos acadêmicos e da mídia, é certo dizer com Bertrand Russell:
“Um exame sem parcialidades da conduta internacional de hoje
permite concluir que os parâmetros de comportamento mantidos pelo
nazismo e fascismo tornaram-se geralmente aceitos (“The Doctrine
of Extermination’)”.

Isso permite, nas guerras de agora, a violência contra civis em
escala infernal. A liberdade de imprensa, mais do que nunca na
história, deve ser conquistada e garantida. Enquanto restar uma
palavra impressa que não resulte da censura, o silêncio cúmplice
ainda não será a norma absoluta. E haverá uma possibilidade de
convívio entre os humanos.

* Roberto Romano , prof. da Unicamp.