A atualidade internacional dos últimos meses foi dominada pela
preparação e ameaça duma guerra contra o Iraque. A guerra é apresentada
como inevitável, necessária e até útil. No entanto, essa guerra possível
divide os governos e os povos. No entanto posições contrastadas aparecem
entre países aliados, e um setor crescente da opinião pública se mobiliza
contra a guerra.

A reação ao atentado terrorista contra Nova York foi rápida. Em cinco
semanas (8/10-14/11) os EUA invadiram o Afeganistão então nas mãos dos
Talebans. Em janeiro 2002, o presidente Bush nomeia o “eixo do mal”: o
Iraque, o Irã e a Coréia do Norte. A partir de agosto, o Iraque se torna o
alvo principal da propaganda antiterrorista. Em setembro, Bush define a
nova doutrina militar estadunidense: os EUA não podem aceitar que qualquer
país pretenda competir contra a hegemonia militar dos EUA e ameaçar a sua
segurança e os seus interesses. Qualquer ameaça em esse sentido será
eliminada por uma guerra preventiva. O Iraque foi nomeado como a principal
ameaça atual.

Os EUA acusam o Iraque de possuir armas químicas, biológicas e até
atômicas de destruição de massa (ADM). Exigem a destruição dessas armas.
Inspetores da ONU devem ter acesso irrestristo a qualquer lugar e
instalação do país. Acusam também Saddam Hussein de ter conexões com o
grupo terrorista de Bin Laden: Al Qaeda, e de proteger esse grupo. A
conclusão lógica é que Saddam deve se entregar ou morrer. Já uma imensa
armada, terrestre, naval e aérea, de mais de 150.000 soldados, está nas
fronteiras do país. Bush está cercado de colaboradores e conselheiros
radicais, falcões duros e belicosos. Desde que Bush foi eleito, o setor
industrial que mais cresceu é o setor armamentista. O orçamento do
Pentágono já foi ampliado de 50 bi de dólares e alcança US$ 380 bilhões.
Ainda será aumentado em 2003 e 2004. A administração Bush prefere o uso da
ameaça e da força à diplomacia. A ONU mesma é ameaçada de ser ignorada e
desprezada se os EUA consideram que ela é um obstáculo às suas ambições de
dominação imperial.

Inspetores da ONU foram enviados de novo no Iraque em novembro de 2002
para controlar a eventual existência de ADM. Confessam que até agora não
encontraram nenhuma prova clara de existência de ADM. Fica ainda menos
provada a existência de qualquer laço entre Bagdá e Al Qaeda. Analistas,
não sem razão, vêm bons motivos para duvidar que haja vínculos entre os
dois grupos. Hussein e Bin Laden têm histórias e ideologias diferentes.
Hussein dirige um regime que nasceu reclamando-se do socialismo, do
antiimperialismo, que foi aliado da URSS, oposto à Arábia Saudita, que
abateu o rei de Bagdá e tem uma doutrina republicana pro-secular. O grupo
de Bin Laden, Al Qaeda, nasceu como aliado da CIA para lutar contra o
comunismo, tem uma doutrina monarquista e confessionalista, e tem simpatia
com Riad.

Enquanto Bush e seu aliado mais próximo, Blair, dizem apresentar
‘provas irrefutáveis’, um grupo de outros paises diz que estas são apenas
suspeitas e não provas. Fica mais claro que as verdadeiras razões para a
guerra não é o fato do Iraque ter ou não ter ADM, nem sequer a presença de
Saddam, mas o fato do Iraque ter imensas reservas de petróleo e ser o
segundo produtor mundial. Os EUA querem controlar o Iraque – e assim
consolidar a sua influência global sobre todos os paises da região.
Energia, dinheiro e poder são as verdadeiras razões da guerra. Ontem, para
justificar a sua dominação política e econômica, os EUA invocavam a guerra
contra o comunismo. Hoje justificam a sua vontade de mais dominação,
invocando a guerra contra o terrorismo.

A pesar de muita propaganda, os EUA não conseguiram convencer todos os
paises. A União Européia está bastante dividida: Blair faz figura de
preposto de Bush na região. Governos de direita ou governos mais
interessados na Europa como mera zona comercial do que como projeto
político apóiam a iniciativa bélica dos EUA. Os PECO (paises da Europa
Central e Oriental) que acabam de entrar na Otan ou entrarão proximamente
não querem se opor aos EUA. Alguns países próximos geograficamente do
Iraque sofreram tantas pressões que o seu apoio é muito reservado. O veto
da França, com o apoio da Alemanha e outros países da UE, bem como os da
Rússia e da China, no Conselho de segurança da ONU, fortalecem a posição de
muitos paises muçulmanos ou ‘pobres’ do mundo que se opõem também à guerra.
O secretário geral da ONU, Kofi Annan, mostrou mais uma vez a sua
autoridade moral. Vai repetindo que a guerra não se justifica, não é
necessária e não é inevitável.

Opor-se à guerra não significa no caso ser ingênuo ou ‘pacifistas’.
Ninguém ignora a natureza ditatorial do regime político de Saddam. Mas
acham que tem outros caminhos do que o do bombardeio do país para desarmar
o Iraque e pressionam Saddam a cooperar mais.

As conseqüências afetarão o mundo todo. Fala-se dum possível
verdadeiro holocausto com mais de 500.000 mortos, 2 milhões de feridos e 4
milhões de deslocados. A paz mundial e as relações entre paises seriam
muito abaladas; haverá uma nova corrida armamentista. A brecha entre ricos
e pobres será ainda maior. Os conflitos inter-religiosos se multiplicarão.
A guerra poderá significar também a ‘privatização’, e uma ameaça muito
maior de uso, das ADM que já estão nas mãos de vários países. A nível
econômico, o déficit público dos EUA será ainda maior; a recessão econômica
mundial com todas as suas conseqüências sociais aumentará. A ONU perderá
muita autoridade e prestigio na sua tentativa de regular as relações entre
paises.

A forte reação da opinião pública mundial e nos EUA contra a guerra é
sinal de esperança. Desta vez, a mobilização é grande antes do conflito
para não deixar que aconteça. As manifestações antiguerra nos EUA e em
muitas cidades do mundo marcam a opinião pública mundial. A resistência à
propaganda poderosa vindo de Washington é grande. Vozes com grande
prestígio moral falam. O papa João Paulo II expressou a sua oposição à
guerra, com a mesma coragem que em 1991: “a guerra não é sempre inevitável,
e é sempre um fracasso para a humanidade”. Nelson Mandela também expressou
com força o seu repúdio: “Bush é arrogante e míope… EUA vão causar um
holocausto…”. Em todas partes, condena-se um ataque covarde de um país
todo poderoso contra um povo miserável e sem nenhuma defesa.

Não será fácil reverter a situação. EUA e UK já avançaram tanto que
parece difícil voltar atrás. Para os EUA, fazer a guerra virou uma
necessidade para não perder a face; para satisfazer o orgulho nacional e a
onda neoconservadora que o percorre; para não desmentir a campanha
propagandista que demonizou Saddam; e para utilizar os enormes estoques de
armas acumuladas. A guerra parece provável, mas não é inevitável se crescem
o número e a voz dos que se opõem.

Queiramos ou não, essa guerra, se acontecer, será de novo uma
expressão da agressão e dominação dos países ricos contra um país pobre e
sem defesa. Os EUA pretendem trazer a solução em nome da paz, da democracia
e da liberdade. Eles são muito mais o problema do que a sua solução. E
invocando valores universais para os seus interesses exclusivos, os
esvaziam do seu sentido autêntico.

Bernard Lestienne SJ
Brasília, CIAS IBRADES
Terça, 12 de fevereiro de 03

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