Revestir uma pessoa de fama precoce é correr o risco de destruí-la. Todos nós
construímos uma auto-imagem, adornada por funções, posses, talentos e relações
familiares e sociais. Basta um desses aspectos ficar arranhado para irromper a
insegurança.

Por isso o desemprego, que aumenta com as políticas neoliberais, é tão
humilhante. Perdem-se a identidade social, a segurança quanto à sobrevivência da
família e a qualidade de vida. Já reparou quando lhe apresentam a uma pessoa?
Não é suficiente saber-lhe o nome. Há curiosidade em conhecer o que ela faz, em
que trabalha. A falta de emprego é como o chão que se abre sob os pés. Entra-se
em depressão. Porque emprego significa salário que, por sua vez, representa a
possibilidade de aluguel, alimentação, saúde, educação etc.

Há pais que nutrem nos filhos falsos ideais: destacar-se como modelo numa
passarela, tornar-se desportista de projeção, alcançar a fama como atriz ou
ator. O sonho congela-se em ambição e a criança passa a dar-se uma importância
ilusória. Ainda que alcance dois minutos de fama, os tempos de vazio na platéia
são infinitamente maiores que os momentos de aplausos.

O adolescente mergulha no estresse de corresponder à expectativa. Tem de provar
a si e aos outros que é capaz, o melhor ou a mais charmosa e inteligente. Passa
então a viver, não em função dos valores que possui, mas do olhar do outro.

A família, perplexa, se pergunta: como foi possível? Logo ele, tão inteligente!
Foi possível porque a família confundiu brilhantismo com segurança. Considerou-o
um adulto precoce. Exigiu vôo de quem ainda não tinha asas crescidas.

* Frei Betto é autor de “O Vencedor”.