O discurso dominante no mundo, depois de 11 de setembro: continua
sendo o discurso dos EUA. Mas ele mudou.

Durante os anos 90, o discurso norte-americano vendia ao mundo a
prosperidade ilimitada, envolvida num mundo de democracia e de
liberdade, em que o mercado promovia a esta e ao indivíduo como os
valores supremos. O futuro era apropriado com confiança por este mundo
pujante material e espiritualmente. Microsoft, MacDonald’s, Nike, a
bolsa de Nora York, a indústria da diversão, Hollywood – faziam, entre
outros, parte desse universo, que parecia encantar à maioria do mundo,
rendido as delícias e à promessas provindas da maior potência
econômica e política da história.

O fim do ciclo expansivo da economia norte-americana já havia retirado
um dos pilares desse discurso. Ao contrário do que se anunciava, a
“nova economia” também se rendia aos ciclos expansivo e recessivo,
representando um exemplo esgotado daquele e não uma nova era, de
crescimento sem sobressaltos. Já não era possível se valer de uma era
ilimitada de progressos materiais financiados pelas bolsas de valores
para desenhar o futuro dos que acedessem à globalização liberal.

Em seguida, vieram os acontecimentos de 11 de setembro, que pegaram o
novo governo norte-americano em pleno exercício de arrogância extrema
e de isolacionismo prepotente. Não assinava acordos, porque não
receberia nada em contrapartida, por reinar soberanamente no mundo –
do meio ambiente às minas anti-pessoais, da proteção às crianças à
proteção às mulheres, das armas químicas ao armamento nuclear.

Combinados recessão e clima de guerra, o discurso norte-americano
mudou. É como se todos os problemas do mundo tivessem sido abolidos,
em função do tema da (sua) segurança. De fonte de progresso econômico,
os EUA passaram a xerife da ordem mundial. De paraíso das liberdades
individuais, ao vale tudo pela segurança. Do liberalismo de mercado ao
fomentador da economia pelo Estado, ao interventor para baixar preços
de remédios pelo ántrax, a caçador de dinheiros sujos, ao concedor de
perdão da dívida ao Paquistão. (Tudo o que dizia ser impossível aos
críticos da globalização liberal e que agora os próprios EUA fazem.)

Ferido pelos ataques que recebeu, os EUA chantageiam o mundo,
atribuindo-se o direito a qualquer tipo de iniciativa, sepultando a
ONU definitivamente, assim como qualquer ação no marco do direito
internacional.

Ganha em capacidade de iniciativa, mas perde em poder de persuasão. Se
muita gente estava seduzida pelo progresso material prometido pelo
modelo norte-americano e identificava também democracia e liberdade
com suas formas de existência nos EUA, muito menos estão dispostos a
se comprometer com o clima de guerra que o governo norte-americano
instala no mundo.

Se ganha em contundência imediata o discurso da segurança, ele perde
em abrangência e profundidade. Se era possível – embora discutível – o
argumento de que a miséria no mundo se daria pelas limitações ainda
existentes para a globalização liberal – como, por exemplo, o caso da
África -, difícil, senão impossível, deduzir do discurso da segurança,
da guerra e do combate ao terrorismo, a solução para os problemas da
humanidade.

Em suma, o novo discurso nortea-amercano ganha em capacidade de
dominação, mas perde em capacidade hegemônica – aquele de persuasão,
de convencimento -, em que se baseava seu discurso anterior, que havia
permitido a maior capacidade de influência que uma nação havia tido na
história da humanidade.