Somoza era um f.d.p., mas para os EUA era o “nosso f.d.p”, segundo um
secretário de Estado. A URSS dizia que a ditadura de Videla não era
similar à de Pinochet. Paradoxos como esses eram possíveis porque um
inimigo maior se deparava diante das duas super-potências da guerra
fria, o supremo objetivo do bem por que lutavam impunha alianças e
bençãos a governos de qualquer tipo, contanto que se ligassem a seu
bloco.

Os critérios seguidos pelos EUA na sua nova política de alianças
trazem um cheiro indisfarçável de guerra fria: recebe as benesses –
materiais, políticas e de propaganda – quem se somar a Washington na
sua “cruzada”. E como se trata de “guerra”, os critérios são
logísticos e militares. Assim, a Europa perde importância – salvo o
papel de “condottieri” de Tony Blair, basta consolidar o eixo anglo-
saxão, aproveitar para avançar na Alemanha, isolar a França e acenar
para Berlusconi, além de Aznar e possívelmente Chirac. E a América
Latina, bem comportada e submissa, desce mais alguns degraus na sua já
inexpressiva situação no mundo.

Mas importantes são a China e a Rússia, – já que se trata da Ásia e de
guerra contra forças que se identificam com o islamismo – e o
Paquistão – país-chave no enigma afegão. Então os principais parceiros
dos EUA passaram a ser Puttin, Jiang Zemin e Musharraf – este, um
ditador com armas nucleares na mão, um óbvio candidato a Sadam Hussein
ou a Bin Laden, mas que, como disse Tony Blair “escolheu o lado certo”
– isto é, o do que alguns consideram o Bem.

No entanto, os EUA mudaram menos do que alguns imaginam em sua
política externa, além do que o cenário necessariamente requer. Falou-
se muito de abandono do unilateralismo para políticas mais
concertadas. No essencial, essa política não mudou: os EUA não
assinaram nenhum dos tratados pendentes – nem o Protocolo de Kyoto,
nem o de proibição de armas nucleares, nem aquele sobre proibição de
armas biológicas ou os acordos sobre racismo. Não deixaram de boicotar
a criação do Tribunal Penal Internacional, assim como as discussões
sobre um novo sistema de proteção as crianças ou de opor-se ao
controle de pequenas armas.

Mudou o estilo de atuação norte-americana, mas na direção do
unilateralismo. Os EUA atuaram com a bandeira da ONU na Guerra do
Golfo, há dez anos, valeram-se da bandeira da OTAN na Guerra da
Iugoslávia, há um ano e meio, agora atuam com sua própria bandeira no
Afeganistão – além do apoio do seu “mais próximo companheiro de
armas”, como dizia o protocolo chinês de outros tempos, agora aplicado
ao primeiro ministro britânico.

Os aliados são comunicados ou no máximo consultados. Mas são os EUA
que definem o caráter, a duração e a pontaria da ofensiva no
Afeganistão ou se algum outro país será alvo. Tanto a ONU, como até
mesmo a OTAN, estão fora da jogada. A política atual de alianças de
Washington não é nem a de manter estruturas de alianças, mas apenas
estabelece-las em cada caso concreto, com objetivos precisos, até onde
lhes convenha.

Erigido o combate contra o terrorismo – ou aquele que se considera
ligado a Bin Laden – como prioridade, todo o mundo passa a ser
redefinido em função desse objetivo. Daí o tom de guerra fria. Não
importa a natureza de cada Estado, o caráter democrático ou não de
cada governo, seu alinhamento em outras questões – interessa seu lugar
no enfrentamento definido como estratégico. A própria Aliança do Norte
é conhecida por ter abrigado as plantações de papoula que a política
de erradicação dos talibans havia expulsado das regiões sobre seu
controle. Mas seu papel de ariete e eventual participante num governo
pós-taliban a situa como elemento chave da política dos EUA. Da mesma
maneira o comportamento da Rússia em relação à Chechênia e da China em
relação ao Tibet, deixam de contar. Não interessa a cor do rato,
contanto que ele ajude a perseguir o gato – parafraseando famosa frase
de Deng-Hsiao-Ping – aplicado à política, esse é o princípio da nova
guerra fria.

A África continua morrendo de fome, de aids e de ebola, mas os
senhores da guerra, dos dois lados, definiram que a prioridade que
comanda o mundo hoje é a guerra. Diga-me de que lado da barricada você
está e eu te direi que és. Essa a nova guerra fria, assimétrica, por
isso imprevisível, mas uma guerra que ilumina tudo com as cores dos
seus mísseis.

Guerra e paz: Desde 11 de setembro, 2 milhões de novas receitas de
Prozac foram emitidas nos Estados Unidos. As vendas de armas
triplicaram na Flórida.