Nosso país está numa encruzilhada. A famosa estabilidade monetária treme em
todos os seus fundamentos. O câmbio torna-se uma âncora sem gancho, pela qual
o real escorrega para o fundo, enquanto o dólar parece decolar para as
nuvens. A solidez fiscal vira fumaça, diante do esgotamento da capacidade do
povo continuar sendo tributado em cerca de 40% de sua renda, enquanto o
endividamento externo dá um salto de 50 bilhões de dólares, em virtude do
desarranjo cambial. O pagamento do serviço da dívida torna-se algo difícil de
administrar, até mesmo para os capachos do FMI.

Constas fiscais ajustadas, inflação sob controle e forte influxo de
investimentos diretos – os tão decantados fundamentos econômicos que teriam
sido conquistados através de virtuosas políticas macroeconômicas fiscal,
monetária e cambial – aparecem cada vez mais como o que sempre foram:
fundamentos frágeis, que se sustentavam na privatização selvagem (quase 80%
do patrimônio público já alienado), na exploração desenfreada dos
trabalhadores (cuja renda caiu mais de 50% desde 95) e na corrupção
generalizada (Lalau, está provado, é apenas um pé de chinelo).

Isso, sem considerar que fundamentos econômicos que não estão cravados num
sólido terreno social não passam de miragens no deserto. Num país em que o
desemprego atingiu taxas estimadas que vão de 10% a 20%, em que a economia
informal de resistência popular produz alta porcentagem do PIB, em que a
agricultura para a alimentação doméstica precisa ser complementada por
importações, apesar da extensão de seus solos agricultáveis e dos milhões de
trabalhadores exigindo acesso à terra para trabalhar, e em que o número de
miseráveis oficiais é de um terço da população (50 milhões) e o de pobres é
certamente quase dois terços, falar em fundamentos econômicos sólidos é,
seguramente, uma piada de mau gosto.

Bastaria isso para não haver dúvidas quanto à encruzilhada em que nos
encontramos. Porém, para complicar ainda mais, temos uma Constituição
remendada, que permite que o país seja governado por Medidas Provisórias, e
se transformou num frankestein jurídico, cujo único objetivo consiste em
eternizar os privilégios das grandes corporações empresariais, em especial,
de seu setor financeiro.

Em outras palavras, estamos retornando à mesma encruzilhada que a ditadura
militar havia colocado o país após seu milagre, mas com o povo em condições
ainda piores da que se encontrava naquela ocasião. Nesse contexto, como
implementar políticas de aumento dos investimentos públicos e privados,
crescimento econômico, expansão dos empregos e do mercado interno,
erradicação da miséria e da pobreza, distribuição menos desigual da renda,
controle sobre a inflação, equilíbrio cambial, contas fiscais ajustadas e
taxas de juros baixas? Ou, como evitar que o Brasil de amanhã seja a
Argentina de hoje? Mas isso é assunto para outros comentários.

DEJA TU COMENTARIO

Por favor ingrese su comentario!
Por favor ingrese su nombre aquí