O reinício da propaganda eleitoral gratuita na rádio e na TV suscitará comentários do tipo: “finalmente agora está havendo equilíbrio de tempo entre Dilma Rousseff e Aécio Neves”, uma vez que os dois candidatos disporão, cada um, de dez minutos para seus programas e um idêntico número de inserções.
 
Mas o suposto “desequilíbrio” em favor de Dilma no primeiro turno da eleição – que não existiu – continuará não existindo no segundo turno. Os tempos iguais da propaganda gratuita coexistirão com os tempos profundamente desiguais em favor de Aécio na maioria esmagadora de jornais, revistas, rádios e televisão.
 
Quem tiver dúvidas, confira o MANCHETÔMETRO, elaborado pelo Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).
 
Quando teve acesso à rádio e à TV na presente campanha eleitoral, o PT viu-se à frente com dois desafios: (1) expor as realizações do Governo Dilma, ocultas ou tergiversadas nos meios convencionais de comunicação e (2) esclarecer o verdadeiro alcance e as implicações da propaganda oposicionista, o que muitos chamaram de “desconstrução”.
 
Esses dois procedimentos eram essenciais para que Dilma pudesse apresentar, com credibilidade, suas propostas para o próximo quadriênio e, ao mesmo tempo, questionar o discurso das oposições.
 
De um lado, sob o manto de uma suposta “terceira via”, desfechava-se um forte ataque ao Governo Dilma, opondo-lhe conceitos vagos como “governar com os bons”, “democracia de alta intensidade” ou “política externa de valores”, que mal escondiam um renascer neoliberal na caracterização do modelo econômico, uma indefinição quanto à reforma política e uma mal disfarçada submissão em matéria diplomática.
 
De outro, a desinibição de assessores econômicos, políticos e diplomáticos do candidato punha em evidência um incontrolável desejo de volta a um passado que a sociedade não só repudiou nos últimos 12 anos, como foi capaz de opor-lhe sólida alternativa.
 
À medida que se aproximava outubro e fortalecia-se a perspectiva da reeleição de Dilma, intensificou-se uma forte campanha de imprensa que talvez só encontre paralelo naquela que levou Vargas ao suicídio, em 1954, e os militares ao poder, dez anos depois.
 
Não passa despercebida hoje a recorrência de temas como a “ameaça da inflação”, o “perigo da corrupção” ou os “riscos” de uma política externa “ideológica”.
 
A inflação atual, contida há dez anos nas margens da meta, difere bastante daquela que assombrava Vargas e Goulart em 54 e 64, respectivamente.
 
O espantalho da corrupção usado contra Getúlio (o “mar de lama”) e contra Jango foi, em realidade, um álibi utilizado para esconder a ojeriza dos conservadores às reformas em curso naquelas duas conjunturas.
 
Reviver o fantasma da corrupção hoje é grotesco, na medida em que os malfeitos vêm sendo apurados e combatidos de forma exemplar no Governo Dilma e não varridos para baixo do tapete como foram a compra de votos para garantir a reeleição de FHC, as privatarias, os escândalos ligados à construção de metrôs ou o “mensalão tucano” de Minas Gerais.
 
Não se pode ocultar, no entanto, que, além do combate à corrupção realizado, Dilma foi a única candidata que apresentou propostas concretas para enfrentar este grave problema que afeta duramente as instituições republicanas aqui e no resto do mundo.
 
Finalmente, sob o manto de uma crítica ao “partidarismo” da política externa atual, esconde-se um incontrolável desejo de volta ao passado – esse sim ideológico – quando o Brasil praticou um alinhamento submisso, afastou-se de seus vizinhos e abandonou os verdadeiros valores que devem nortear um país livre e soberano.
 
– Marco Aurélio Garcia é Professor de História do IFCH – Unicamp (aposentado). É Assessor Especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais.
 
08/10/2014
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